Livro revela por que Oyó é essencial para entender a Bahia e o Brasil

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“Preservar Oyó é preservar a memória do tráfico transatlântico, da escravidão, da resistência e da continuidade da cultura africana nas Américas”. É a partir dessa perspectiva que o arquiteto e pesquisador Fábio Velame apresenta Oyó: A Cidade do Patrimônio Cultural Iorubá, obra escrita em parceria com Paula Dias Gomes, Oluwatoyin Sogbesan e Tunji Adejumo.

Lançado na primeira semana de julho, em português, inglês e iorubá, o livro reúne um amplo inventário do patrimônio cultural da cidade nigeriana e integra o esforço internacional para que Oyó seja reconhecida como Patrimônio Mundial pela Unesco.

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Mais do que um registro histórico, a publicação revela por que a antiga capital do Império de Oyó é uma das principais matrizes civilizatórias da Bahia e do Brasil, origem de tradições que permanecem vivas na religiosidade, na culinária, na música, na língua e em tantas expressões da cultura afro-brasileira.

Fábio, que é coordenador do grupo de pesquisa EtniCidades: Estudos Étnicos e Raciais em Arquitetura e Urbanismo (Ufba), ainda fala nesta entrevista sobre as conexões entre Oyó e Salvador, a presença da herança iorubá no cotidiano brasileiro e o papel do livro na preservação da memória e da civilização iorubá.

Por que Oyó é tão importante para compreender a formação cultural da Bahia e do Brasil?

Oyó foi um dos grandes impérios da África Ocidental. Ele abrangia a região que conhecemos como Iorubalândia, território dos povos de língua iorubá, correspondente, em grande parte, às atuais Nigéria e Benin. Essa região foi dividida durante a Partilha da África. A porção oriental ficou sob colonização inglesa, dando origem à atual Nigéria, enquanto a porção ocidental ficou sob colonização francesa, que corresponde ao atual Benin.

Entre os séculos 17 e 19, o Império de Oyó foi um dos principais centros de onde partiram africanos escravizados para o Brasil, sobretudo para a Bahia e Salvador, especialmente no final do século 18 e ao longo de todo o século 19. Aqui, esses povos de origem iorubá passaram a ser conhecidos como nagôs. Os nagôs constituíram a maior parte da população africana escravizada em Salvador e na Bahia, especialmente na região do Recôncavo, nesse período.

Dessa presença surgiu uma herança cultural profunda. É dela que vêm alguns dos mais importantes terreiros de candomblé do Brasil, como a Casa Branca, o Gantois, o Bate Folha e o Ilê Axé Opô Afonjá. Também dessa tradição nasceram os afoxés, os blocos afro, o samba de roda, a capoeira e boa parte dos bairros populares e negros de Salvador.

Como foi transformar uma pesquisa complexa numa obra acessível?

Foi um trabalho bastante longo e intenso. Um esforço conjunto de pesquisa e preservação do patrimônio cultural iorubá. O livro foi publicado em três línguas – português, inglês e iorubá. Em português, para alcançar o público brasileiro; em inglês, por ser a língua oficial da Nigéria, resultado da colonização britânica; e em iorubá, como parte de um movimento de valorização e descolonização do conhecimento, reafirmando a importância da língua dos próprios povos iorubás.

A publicação busca garantir que esse conhecimento seja acessível às populações tradicionais das cidades históricas ligadas ao culto dos orixás, e tantas localidades da Nigéria que preservam a ancestralidade e as tradições religiosas iorubás.

Mais do que o resultado de uma pesquisa acadêmica bem-sucedida e relevante para pesquisadores, professores e estudantes, este livro é, sobretudo, um instrumento de luta política. Ele foi concebido como uma contribuição para a preservação do povo de Oyó, de sua cultura, de suas tradições e de seu patrimônio histórico. Acima de tudo, representa um compromisso com a permanência, a resistência e a continuidade da civilização iorubá no mundo.

O livro foi publicado em três línguas, qual é o significado dessa escolha?

Foi um trabalho desenvolvido ao longo de cinco anos, fruto de um convênio entre a Universidade Federal da Bahia, a Universidade de Oyó, a Universidade de Lagos e o Palácio Real de Oyó. O objetivo era realizar um amplo levantamento do patrimônio cultural iorubá na cidade de Oyó para subsidiar o processo de candidatura do local ao reconhecimento como Patrimônio Mundial da Unesco.

O Aláàfin, rei de Oyó, esteve no Brasil em 2014 e buscou apoio do governo brasileiro, do governo da Bahia e dos terrei ros de candomblé tombados para fortalecer esse processo de reconhecimento internacional. Essa mobilização acontece porque há uma grande preocupação com as ameaças ao patrimônio cultural iorubá. Entre elas estão a pressão de grupos extremistas, tanto islâmicos quanto cristãos protestantes, além da expansão do mercado imobiliário e de interesses econômicos que colocam esse patrimônio em risco.

Por isso, o tombamento da cidade pelo Ministério da Cult ura da Nigéria e, sobretudo, o reconhecimento pela Unesco são vistos como instrumentos fundamentais para preservar e proteger o patrimônio cultural iorubá e, de forma mais ampla, a própria civilização iorubá. Esse reconhecimento é fundamental porque significa elevá-la à condição de um bem da humanidade, que deve ser protegido e preservado sob a tutela da comunidade internacional.

Isso coloca Oyó no mesmo patamar de outros grandes patrimônios reconhecidos mundialmente. Esse reconhecimento é especialmente importante para o Brasil. Podemos dizer que, para as religiões de matriz africana, Oyó ocupa um lugar semelhante ao que Roma representa para os católicos ou Meca para os muçulmanos. Trata-se de uma referência histórica, cultural e espiritual para a diáspora africana e, em particular, para os povos de terreiro no Brasil.

Preservar Oyó é preservar a origem mítica de muitas dessas tradições, bem como as referências afro-diaspóricas que conectam a população negra brasileira, especialmente aquela vinculada às religiões de matriz africana, ao continente africano.

Preservar Oyó também é preservar a memória do tráfico transatlântico de africanos escravizados, da escravidão, das formas de resistência construídas por esses povos e da continuidade da cultura africana nas Américas. É proteger um patrimônio que faz parte não apenas da história da Nigéria, mas também da história e da identidade cultural do Brasil.

Ao longo da pesquisa, quais similaridades entre Oyó e Salvador mais lhe surpreenderam?

São muitas as conexões. Boa parte da cultura baiana e brasileira está ligada aos povos iorubás, especialmente aos de Oyó. Isso aparece na musicalidade, na dança, na estética, na culinária e na rel igiosidade, sobretudo no culto aos orixás.

Essa influência também está presente na organização dos bairros étnicos, estruturados a partir da ideia de família extensa, dos laços consanguíneos, religiosos, da ancestralidade e da antiguidade.

Está presente na nossa língua, marcada por influências do iorubá, e também na forma de estar no mundo, na cosmopercepção, no etho s e nos valores estéticos que herdamos dessa tradição iorubá oriunda da Nigéria.

Os baianos reconhecem essa presença da herança iorubá no cotidiano ou ainda têm um distanciamento em relação às suas origens?

A herança iorubá está presente no cotidiano da população brasileira, especialmente na Bahia. Ela se manifesta em diversos aspectos da nossa cultura e das nossas tradições.

Um exemplo é o acarajé. Na Nigéria, ele é chamado de acará; aqui, tornou-se acarajé. O modo de preparo é praticamente o mesmo, assim como o uso do azeite de dendê, ingrediente fundamental tanto na culinária nigeriana quanto na baiana. Essa influência também aparece na estética e na forma de vestir.

Nos terreiros de candomblé, por exemplo, a valorização das belas roupas e das indumentárias rituais é uma herança da cultura iorubá. Os iorubás sempre atribuíram grande importância à elegância, ao refinamento no vestir, na postura e na maneira de se apresentar. Herdamos muito dessa tradição, assim como da alegria e da celebração da vida que marcam essa cultura.

No entanto, a consciência de que esses elementos fazem parte de uma herança iorubá ainda é bastan te limitada. Isso é consequência do racismo estrutural, do racismo simbólico e do racismo institucional que persistem na sociedade brasileira.

Também resulta da implementação insuficiente da Lei 10.639/2003, que tornou obrigatório o ensino da história e da cultura africana e afro-brasileira na educação básica. Quando esse conteúdo não é efetivamente trabalhado nas escolas, a população – especialmente a população negra – deixa de con hecer as origens, a história e a cultura que estão presentes em seu cotidiano.



Fonte: A Tarde

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