Lojas físicas tentam resistir à mudança no consumo em Salvador

5

O comércio de rua de Salvador atravessa uma fase de mudanças. Em áreas tradicionais da capital baiana, comerciantes relatam queda no movimento e nas vendas, enquanto o consumidor passou a pesquisar mais, comparar preços e comprar sem precisar sair de casa. A combinação entre internet, crédito mais caro e orçamento apertado vem mudando o cotidiano de quem depende das vendas presenciais.

A redução de lojas das Casas Bahia em diferentes pontos da cidade colocou o assunto em evidência. A rede fechou unidades em locais como Salvador Shopping, Shopping da Bahia, Paralela, Barra, Piedade, Salvador Norte e Bela Vista, além de endereços na Baixa dos Sapateiros, Avenida Sete, Manoel Dias e Cabula. O movimento, porém, não se resume às grandes empresas e também chega aos pequenos estabelecimentos.

Dados mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o número de empresas de comércio e reparação de veículos com até nove pessoas ocupadas em Salvador caiu de 23.972, em 2023, para 23.657, em 2024. Foram 315 negócios a menos, o equivalente a uma redução de 1,3% em um ano.

O número não aponta sozinho as causas da redução, mas ajuda a dimensionar um cenário que aparece nas ruas da cidade. Para os pequenos comerciantes, manter um ponto funcionando significa arcar todos os meses com aluguel, funcionários, impostos, energia e outros gastos. Quando o movimento cai, essas despesas continuam chegando.

Na Baixa dos Sapateiros, no Centro Histórico da capital baiana, a comerciante Lislene Dias conhece essa realidade, afinal, administra, ao lado do pai, uma loja de artigos de casa, mesa e banho que está instalada na região há mais de 30 anos. A família nasceu em Tobias Barreto, em Sergipe, e veio para Salvador em busca de uma vida mais estável.

Lislene veio de Tobias Barreto há 5 anos para ajudar o pai que já é conhecido no local

Lislene veio de Tobias Barreto há 5 anos para ajudar o pai que já é conhecido no local | Foto: Shirley Stolze/Ag. A Tarde

A trajetória do estabelecimento atravessou diferentes momentos do comércio da região. O cenário atual, no entanto, é descrito pela comerciante como um dos mais difíceis. Para ela, a perda de força da área começou antes das compras pela internet e ganhou novos problemas com a pandemia do Covid-19 e as mudanças no transporte público.

“Vendas no varejo não existem mais aqui. Na Baixa do Sapateiro e Barroquinha, não se vende varejo. Antes do e-commerce, já estava ruim, e aí, com a entrada da pandemia, muita gente acabou aprendendo a comprar online. Também tiraram muitas linhas de ônibus daqui. Tudo isso culminou com uma quebradeira total. Antes era um centro comercial muito bom; hoje em dia, praticamente, não existem vendas aqui”, diz ao MASSA!.

Lislene também aponta a redução de serviços básicos para o consumidor como um dos fatores que, na avaliação dela, contribuíram para diminuir a circulação de pessoas na região. Bancos, clínicas, correios e outros estabelecimentos citados por ela costumavam levar pessoas de diferentes regiões até o Centro. Com menos atividades concentradas no local, o fluxo de visitantes acabou ficando mais limitado.

O negócio, segundo Lislene, não é mais tão lucrativo

O negócio, segundo Lislene, não é mais tão lucrativo | Foto: Shirley Stolze/Ag. A Tarde

A proximidade com o Pelourinho, um dos maiores pontos turísticos de Salvador, também não garante, segundo Lislene, uma movimentação suficiente para o comércio. Turistas circulam pela região histórica, mas parte deles não chega às áreas de vendas mais populares ou não encontra motivos para continuar o passeio pela Baixa dos Sapateiros e pela Barroquinha.

“Aqui não tem mais nada, não tem banco, não tem um serviço de SAC, não tem um correio, não tem uma clínica, não tem nada que atraia uma pessoa a querer vir aqui. O pessoal que transita aqui, muitos são moradores, alguns são turistas que vêm para cá procurando alguma coisa e não tem nada aqui. Então, o que dificulta é isso: não tem algo que atraia as pessoas a virem para essa região”, descreve.

Mesmo com as dificuldades, a loja continua aberta. A história construída no endereço é uma das razões para a permanência, mas o trabalho com atacado também ajuda a sustentar a operação. Lislene afirma que esse formato tem sido importante diante da queda do varejo na região.

Aspas

Por a gente ter muitos anos aqui, a gente mantém a loja e porque a gente também trabalha com atacado. Aqui, só quem trabalha com atacado continua. Ou isso ou o pessoal do brechó. Como a gente já tem muitos anos aqui, a gente ainda fica, mas a gente tá com o pé para ir embora.

lamenta.

Brechó virou saída

Na mesma região, a tentativa de continuar no comércio levou Alexandro Santana a mudar o perfil dos negócios. Dono de duas lojas na localidade, ele transformou os estabelecimentos em brechós para trabalhar com peças mais baratas e alcançar consumidores que estão procurando economizar.

Alexandro é dono de 2 brechós que ficam localizados na Baixa dos Sapateiros

Alexandro é dono de 2 brechós que ficam localizados na Baixa dos Sapateiros | Foto: Shirley Stolze/Ag. A Tarde

Filho de lojista, Alexandro cresceu vendo o comércio como uma possibilidade de futuro. A realidade encontrada atualmente, no entanto, segundo conta ao MASSA!, é bem diferente daquela que conheceu durante a infância. O movimento diminuiu e a quantidade de portas fechadas aumentou.

Aspas

A gente tá aqui pela misericórdia. A gente já é guerreiro para estar aqui ainda. 70% das lojas estão fechadas, praticamente são quatro lojas fechadas para uma aberta. Então, a gente está aqui de teimoso ainda. As vendas caíram muito por falta de público

aponta.

A estratégia também acompanha uma preocupação cada vez mais presente entre consumidores: fazer o dinheiro render. Alexandro afirma que o preço se tornou um dos principais motivos para as pessoas procurarem o brechó.

“Preço e qualidade. É isso que o pessoal busca muito. O que importa é o preço, né, das roupas. Aí, no brechó, a pessoa encontra muita qualidade com preço acessível, né? Bem barato. No caso, um vestido que custa numa loja normal R$80, R$100, aqui no brechó você compra por R$10, R$20.”

Comprar ficou digital

Do outro lado do balcão, o consumidor também passou a tomar decisões de maneira diferente. A internet transformou o celular em uma vitrine que funciona durante todo o dia. Basta pesquisar para encontrar produtos, comparar valores e verificar outras opções antes de finalizar uma compra.

A estudante Júlia Melo, de 18 anos, está entre as pessoas que passaram a recorrer mais às plataformas digitais. De acordo com a jovem, o preço é um dos principais motivos para escolher uma compra pela internet, especialmente quando se trata de roupas.

“Às vezes, o custo-benefício é melhor. Geralmente, blusas, calças, dá mais vontade de comprar pela internet. Porque, numa loja física, uma calça é tipo R$200 e pouco; você consegue achar mais barato. Então, acho que acaba, às vezes, fazendo as pessoas consumirem mais online” , exemplifica à reportagem.

Mesmo indo para às ruas todos os dias, Júlia ainda prefere comprar no meio digital

Mesmo indo para às ruas todos os dias, Júlia ainda prefere comprar no meio digital | Foto: Shirley Stolze/Ag. A Tarde

A praticidade também entra na conta. A pesquisa pode ser feita de qualquer lugar, sem deslocamento, estacionamento ou espera. Além disso, a quantidade de produtos disponíveis na internet, na visão de Júlia, permite procurar modelos específicos que podem não estar no estoque de uma loja próxima.

“Você tá ali na sua casa, você vê, você idealiza, você consegue montar o look na sua mente ou até por fotos mesmo, inspirações, e você acha mais coisas que se adequam ao seu estilo, tanto acessórios, blusas e outras coisas que nas lojas físicas não têm tanto, que é mais uma coisa genérica, que é sempre mais do mesmo”.

Loja física ainda tem espaço

A preferência pelo comércio digital, no entanto, não é unânime. Parte dos consumidores continua valorizando a possibilidade de entrar em uma loja, olhar as peças de perto, experimentar e levar o produto imediatamente. Para esse público, a experiência presencial ainda pesa na decisão.

A modelo Joana Sá, que nasceu e cresceu no Pelourinho, prefere fazer compras dessa maneira. Ela afirma que costuma recorrer pouco à internet e vê a possibilidade de experimentar como uma das principais vantagens do comércio físico.

Joana ainda prefere comprar nas lojas físicas

Joana ainda prefere comprar nas lojas físicas | Foto: Shirley Stolze/Ag. A Tarde

“Eu prefiro loja física porque eu consigo escolher direitinho as peças, posso experimentar também e não demora para chegar. Eu fico um pouco ansiosa, costumo comprar pouco pela internet”, aponta.

A estudante Agatha Santos, de 19 anos, segue uma linha parecida. Embora reconheça que o celular tornou as compras digitais mais acessíveis, ela mantém o costume de procurar estabelecimentos físicos para comprar roupas, acessórios e outros produtos.

“Apesar de ser mais acessível por conta do celular, eu sempre aprendi a comprar nas lojas físicas. Eu acho mais acessível para mim, por enquanto, comprar roupas, artefatos e acessórios na loja física”, diz.

Agatha relata que não abre mão de tocar no produto antes de comprar

Agatha relata que não abre mão de tocar no produto antes de comprar | Foto: Shirley Stolze/Ag. A Tarde

Para Agatha, a mudança também tem reflexos sobre o mercado de trabalho. A redução do número de lojas pode diminuir oportunidades para pessoas que procuram o primeiro emprego ou experiência em áreas como vendas, atendimento e gerência.

Ela também considera que o comércio presencial tem um papel na circulação de dinheiro dentro da cidade. Na avaliação da estudante ao MASSA!, a facilidade das plataformas digitais não elimina os problemas que podem surgir quando o comércio físico perde espaço.

“Ao mesmo tempo que as pessoas preferem consumir mais nas lojas digitais, eu também acho um pouco prejudicial por conta das pessoas que precisam de trabalho. Pessoas que precisam de experiência de trabalho na parte de vendas, recepção e por aí vai, gerência e tudo mais. Então, também tem esse impacto da renda, do emprego, de pessoas que precisam de emprego. Eu acho muito delicado”, explica.

Efeito na economia

A percepção da estudante sobre os efeitos da mudança no comércio se conecta a um cenário mais amplo. A transformação no jeito de comprar acontece ao mesmo tempo em que os consumidores lidam com uma economia que influencia diretamente a capacidade de manter o consumo.

É nesse ponto que entra a avaliação do economista e presidente do Conselho Regional de Economia da Bahia (Corecon-BA), Edval Landulfo. Segundo ele, inflação, custo de vida elevado, crédito mais caro e comprometimento da renda estão entre os fatores que afetam diretamente o varejo.

Para os pequenos negócios, o cenário pode ser ainda mais difícil. Uma loja menor costuma ter menos margem para absorver períodos de faturamento baixo. Enquanto isso, despesas fixas seguem existindo, independentemente da quantidade de clientes que entram pela porta.

Edval  é presidente do Conselho Regional de Economia da Bahia

Edval é presidente do Conselho Regional de Economia da Bahia | Foto: Arquivo pessoal

A concorrência com a internet aparece, portanto, dentro de um problema maior. O comerciante precisa disputar preço e atenção com empresas que operam sem depender de um ponto físico, ao mesmo tempo em que arca com todos os custos de manter uma loja na rua.

Edval também aponta uma mudança na forma como o varejo organiza seus negócios. O modelo chamado de “figital” combina os canais físico e digital e procura fazer com que os dois funcionem juntos.

Na prática, uma loja pode continuar sendo importante mesmo quando a compra não acontece diretamente no balcão. O consumidor pode experimentar um produto no estabelecimento, pesquisar o preço pelo celular, comprar pela internet e voltar ao endereço para retirar ou trocar a mercadoria.

Leia Também:

A mudança ajuda a entender por que algumas empresas estão revendo o tamanho de suas estruturas. Manter muitos pontos espalhados pela cidade significa assumir despesas que podem não compensar quando boa parte dos consumidores prefere concluir o pedido pelo celular.

Em conversa com a reportagem, o economista Marcelo Ferreira avalia que a questão está ligada principalmente ao comportamento de quem compra. Para ele, o consumidor passou a considerar também o esforço necessário para chegar até uma loja e só aceita fazer esse deslocamento quando encontra alguma vantagem.

Marcelo é economista

Marcelo é economista | Foto: Arquivo pessoal

“Não é apenas uma questão de loja física especificamente, é uma mudança de comportamento a partir dos paradigmas digitais. O consumidor mudou: se for para sair de casa, pegar trânsito e pagar estacionamento, tem que valer muito a pena. Se a loja só serve como vitrine e tem o mesmo produto mais caro do que no celular, as pessoas vão comprar no aplicativo. É simples assim.”

Fechamentos afeta geral

A saída de grandes empresas de determinadas regiões também pode afetar outros negócios. Uma loja movimentada não atrai apenas seus próprios clientes. Restaurantes, estacionamentos, vendedores ambulantes e outros estabelecimentos costumam se beneficiar do fluxo de pessoas.

Quando uma unidade fecha, parte dessa movimentação deixa de existir. Se vários estabelecimentos passam pela mesma situação, a mudança pode ser percebida em uma área inteira, principalmente em regiões que dependem do comércio para manter as ruas movimentadas.

O fechamento de lojas se torna cada vez mais frequente no Centro da cidade

O fechamento de lojas se torna cada vez mais frequente no Centro da cidade | Foto: Shirley Stolze/Ag. A Tarde

Marcelo explica que os efeitos podem alcançar trabalhadores e empresas que não pertencem diretamente às grandes redes. Apesar das mudanças, o economista não acredita que as lojas físicas deixem de existir. A avaliação é que o comércio presencial deverá encontrar novas funções para continuar fazendo parte da rotina dos consumidores.

A tarefa, nesse cenário, é conciliar a estrutura que existe na rua com a realidade criada pelo celular. Para os pequenos comerciantes, isso pode significar encontrar maneiras de vender pela internet sem abandonar completamente o ponto físico, além de controlar custos em um período de vendas mais disputadas.

“Não creio que vão sumir totalmente, mas quem não se mexer vai falir. O comércio tradicional só sobrevive se entender que precisa integrar o físico com o digital. Vai ser preciso oferecer uma experiência de consumo diferente, que justifique a ida do consumidor até lá, e aumentar ainda mais a eficiência para enfrentar os custos.”, complementa.

Marcelo Ferreira diz que comerciantes precisam se reinventar para não falir

Marcelo Ferreira diz que comerciantes precisam se reinventar para não falir | Foto: Shirley Stolze/Ag. A Tarde

Em Salvador, essa mudança já pode ser percebida no dia a dia. A discussão sobre o futuro das lojas físicas, portanto, não se resume à possibilidade de o comércio eletrônico substituir o varejo de rua. Os números e os relatos mostram um setor em transformação, no qual diferentes formatos convivem e disputam a atenção de consumidores que passaram a ter mais opções para escolher onde e como comprar.

Fonte: A Massa

Artigos relacionados

Geral

Samba Viaduto faz 2 anos com festão e convidados surpresa

Samba do Viaduto celebra 2 anos de existência |  Foto: Reprodução/Natali Silva...

Geral

Baiana brilha em filme que pode representar o Brasil no Oscar 2027

Maíra Azevedo na pele da personagem Joana |  Foto: Divulgação O cinema...

Geral

TRT toma decisão importante sobre trabalhadores da Casas Bahia

O Grupo Casas Bahia chegou a Bahia em 2009 |  Foto: Reprodução...

Geral

Guardar e expor: homem é condenado a 10 anos por pornografia infantil

Justiça acatou a denúncia do MP contra o condenado |  Foto: Divulgação/...