Mercado imobiliário baiano descobre o nicho dos 60+

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A pergunta parece simples, mas carrega o peso de uma transformação silenciosa nas cidades ao redor do mundo: onde morar quando os filhos saem de casa, o corpo exige mais cuidado e a solidão bate à porta?

No Brasil, e agora também na Bahia, o mercado imobiliário começa a ensaiar uma resposta — ainda tímida, mas consistente — para uma geração que envelheceu, mas não desacelerou.

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O estado tem, hoje, seu primeiro empreendimento residencial concebido exclusivamente para o público 60+: o Residencial Horto Sênior, em construção em Vitória da Conquista, no sudoeste baiano.

São 58 casas de dois e três quartos projetadas com banheiros adaptados, portas largas, espaços amplos e um sistema integrado de sensores de alarme, gás e assistentes virtuais.

Cada ambiente conta com botão de pânico: se o morador cair, um alarme é acionado simultaneamente na portaria e na enfermaria do condomínio, que funcionará 24 horas.

“O foco é acessibilidade e segurança, mas sem abrir mão de uma vida ativa”, explica Maurício Muiños, sócio da Engenhar Construtora, responsável pelo empreendimento. O condomínio prevê piscina coberta aquecida, espaço para pilates e terapias ocupacionais, academia ao ar livre, minimercado, horta, orquidário e salão de convivência. Parcerias com convênios de saúde e empresas de cuidadores também estão previstas, assim como suporte profissional para o gerenciamento de medicações.

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A ideia nasceu de uma necessidade pessoal. Muiños conta que, ao se deparar com a situação da própria mãe — independente, mas já impossibilitada de morar sozinha —, percebeu que faltava no mercado exatamente aquilo que ela precisava: autonomia com segurança.

“Playground com criança correndo leva ao risco de acidente, não tem acessibilidade no prédio todo, tem equipamentos que o idoso paga, mas não usa”, enumera o construtor, ao justificar por que os condomínios tradicionais deixam a desejar para esse público.

80% comercializado

A resistência inicial do mercado já deu lugar a números expressivos. Apesar de alguns terem chamado o projeto de “condomínio dos velhos”, 80% das unidades já foram vendidas. A entrega está prevista para junho de 2027.

Parte dos compradores são investidores que adquiriram os imóveis para locação — sinal de que o segmento começa a despertar interesse também como negócio.

Quem chegou antes ao nicho foi Sheila Rangel, economista com doutorado em engenharia de produção pela Universidade Federal de Santa Catarina e corretora de imóveis. A trajetória até o segmento sênior passou, primeiro, pela acessibilidade: desde 2018, ela atua voluntariamente com inclusão, ministrando oficinas de mediação para cegos.

Em 2022, ao assistir a uma live do Creci de São Paulo com uma corretora cadeirante relatando a dificuldade de encontrar imóveis acessíveis, decidiu fazer o curso de corretagem para atuar especificamente nesse nicho.

A surpresa veio das redes sociais.

“Quando comecei a falar sobre acessibilidade, a maior parte do público que interagia comigo era, na verdade, idoso”, conta Sheila. A percepção a levou a ampliar o foco e mergulhar no mercado de moradia sênior na Bahia, onde, além do Horto Sênior, ela já identificou um segundo empreendimento aguardando licenças ambientais para ser lançado em Itacimirim, no litoral norte, previsto para novembro. Ela também está em contato com empreiteiras para viabilizar projetos similares em Salvador.

Para Sheila, as construtoras ainda não acordaram para o potencial do segmento.

“Estão olhando muito para o público jovem, com apartamentos compactos ou imóveis muito grandes, de três quartos ou mais. Não despertaram para o mercado de moradia sênior, que demanda adaptações, espaços com menos cômodos, mas que sejam amplos e acessíveis.”

Uma pesquisa informal que a corretora conduziu no Instagram revelou que esse público prioriza, além de acessibilidade, espaços com plantas, centro ecumênico, piscina aquecida para hidroginástica e salão de dança.

“Eles buscam um senso comunitário de pertencimento. Os espaços para essas atividades propiciam o convívio social.”

Expectativa de vida

O dado não é trivial. O Brasil envelhece rapidamente, e a infraestrutura, seja pública ou privada, ainda corre atrás. Segundo o IBGE, a expectativa de vida dos brasileiros, que era de 57 anos em 1970, chegou a 77 anos nos dias atuais.

E de acordo com o Banco Mundial, enquanto a França levou quase um século para dobrar sua população idosa de 7% para 14%, o Brasil fará esse mesmo percurso em apenas duas décadas.



Fonte: A Tarde

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