Das incoerências do mundo, a mais forte candidata a principal paradoxo é o fato de se produzir comida suficiente, enquanto há tantos famélicos e desnutridos. A contradição aparece em novo estudo da FAO – braço das Nações Unidas para cuidar do tema da alimentação, uma tentativa de alertar os governos e sociedades.O problema não é a oferta de calorias, mas sim o acesso aos nutrientes. Quando se consegue saciar a fome, nem sempre estão ao alcance proteínas de qualidade. Também é difícil adquirir frutas, verduras e legumes. A conta do cardápio recomendável pesa no bolso das famílias, sobretudo das mais pobres.A situação é ainda mais grave na América Latina e no Caribe, regiões onde o custo da alimentação saudável vem se mantendo como o maior do planeta. A sensação de injustiça aumenta quando se sabe a importância destes povos mais carentes ao colaborarem, geração após geração, com a produção de alimentos agora nem sempre a eles acessíveis.
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O milho, o cacau e o abacate são contribuições de maias e astecas; a batata, dos andinos; mandioca e caju, indígenas brasileiros; e as uvas, dos chilenos. É uma contradição dolorosa para territórios com forte vocação agrícola: exportamos milhões de toneladas, mas não conseguimos assegurar diversidade e qualidade nutricional para nossa própria população.A mecânica de mercado privilegia commodities e longas cadeias de exportação, enquanto os mercados locais enfrentam distribuição cara, ineficiente e desigual. O cenário expõe, com clareza perturbadora, a divergência entre o mundo em que se impõe o enriquecimento dos investidores no agronegócio e aquele que deveria também privilegiar atender a demanda, seguindo a máxima de destinar para cada um segundo sua necessidade.Entre um e outro pólo antagônico, é preciso buscar meios razoáveis de abastecimento com cotas mínimas de alimentos saudáveis, pois não se pode aguardar o amanhã para suprir as carências do organismo humano.
Fonte: A Tarde