O Carnaval não pode ser decidido às portas fechadas

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Secretário de Cultura da Bahia, Bruno Monteiro –

Repensar o Carnaval de Salvador é, na avaliação do secretário estadual da Cultura, Bruno Monteiro, uma tarefa que exige escuta ampla e transparência. “A avaliação sobre o Carnaval não pode ser uma discussão de véspera”, afirma, ao defender um debate imediato com a participação de todos os setores envolvidos na festa.

Para ele, é preciso incluir desde artistas e empresários até ambulantes, cordeiros e catadores. Em meio à reflexão sobre superlotação, atrasos e mudanças na ordem dos trios, o secretário aponta problemas recorrentes na organização.

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Confira a entrevista completa com Bruno Monteiro

O senhor vem defendendo uma avaliação ampla e imediata do Carnaval de Salvador. Como deveria ser conduzido esse processo e quais setores — artistas, blocos, patrocinadores, forças de segurança, população — precisam ser ouvidos?

Eu parto do exemplo que pratico dentro de casa. Nós conseguimos, nos últimos quatro carnavais, ter uma ampliação muito significativa de valores e de objeto do programa Ouro Negro, de apoio aos blocos afros, por exemplo. E considero que a gente conseguiu chegar nesses avanços porque quando passa um Carnaval, logo depois chamo todo mundo para fazer uma avaliação, porque o calor do momento ajuda.

A gente faz uma espécie de inventário do que deu certo, do que deu errado. E, quando a gente começa a programar o Carnaval, resgata esse material. Às vezes tem coisas que já foram resolvidas, mas o calor do acontecimento é importante.

A avaliação sobre o Carnaval de Salvador não pode ser uma discussão de véspera. Tampouco uma decisão que venha a ser construída com determinados grupos ou a portas fechadas. O que o Estado defende é que agora, imediatamente após a festa, façamos um debate amplo, transparente e democrático sobre o Carnaval de Salvador.

E quando falo em debate amplo e transparente, todos os setores têm que ser ouvidos. Os poderes públicos, a segurança pública, os artistas, os produtores, os donos de blocos, os donos de camarote, os vendedores ambulantes, os cordeiros, os motoristas de trio elétrico, os catadores de materiais recicláveis. Todas as pessoas que constroem esse ecossistema do Carnaval e que são fundamentais.

Todos os setores têm que ser ouvidos nesse debate sobre o Carnaval

O circuito Barra-Ondina chegou a concentrar 1,2 milhão de pessoas em um único dia. Diante desse cenário de saturação, quais medidas concretas podem ser adotadas para evitar a superlotação desse circuito?

Já está constatado pela experiência e pelos dados de que quando a gente consegue levar mais atrações de peso e com apelo de grandes públicos para o Campo Grande, isso desafoga a Barra. Isso não aconteceu neste ano, mas em 2025 chegamos a ter um dia de Carnaval que teve mais gente no Campo Grande do que na Barra. A fórmula está dada, agora precisa de planejamento. E o planejamento precisa de diálogo.

O que nós vimos este ano foi ordem de apresentações sendo trocadas com o Carnaval em andamento. Falar de um planejamento desse, que requer tempo, parece meio incompatível, dado como as coisas se colocaram. Mas a experiência está dada. Se a gente consegue ter um planejamento que distribua pelo menos entre os dois circuitos e também o Pelourinho, no mesmo dia, pensando as atrações e os seus apelos diferentes, tenho certeza que isso já vai dar uma contribuição bastante relevante, como já deu.

Agora entendo, obviamente, também, por outro lado, que há uma prioridade de muitos artistas e empresários de se apresentarem na Barra.

As críticas sobre atrasos e mudanças na ordem das atrações ganharam força neste ano. Onde, na sua avaliação, estiveram os principais gargalos da organização?

Eu acho que a gente vive reiteradamente um problema sobre a tal ordem da fila dos desfiles. E, se é um problema que se repete há tantos anos, é porque a gente precisa entender que há um problema anterior – que é a falta de transparência e de critérios e na divulgação antecipada. Isso, na minha opinião, é a primeira coisa.

A discussão e os critérios precisam ser mais transparentes e a divulgação da ordem ser feita com antecedência, para evitar qualquer tipo de confusão. Como os absurdos que nós vimos neste ano com a ordem sendo trocada já com as apresentações em andamento.

Há um problema anterior, que é a falta de transparência e de critérios

Inclusive a polêmica envolvendo Daniela Mercury foi o que reacendeu esse debate sobre a ordem dos trios. Como equilibrar o reconhecimento histórico de artistas consagrados com a necessidade de uma grade técnica e organizada?

Tudo passa por termos critérios objetivos e transparentes estabelecidos. Se isso acontecer, todos trabalham a partir da mesma informação. Eu lamento muito que uma pessoa do tamanho e da importância de Daniela Mercury vire pivô de uma discussão que acaba afetando a todos. E aí muitas vezes vejo, inclusive, jogarem isso com um certo tom de machismo, nessa coisa que dizem: ‘sempre tem treta com Daniela’.

Daniela não guarda, nunca manda recado, ela vai lá e fala. E a gente precisa ouvir o que Daniela está falando, porque além da contribuição que ela tem para o nosso Carnaval, que é muito importante, ela é uma pessoa inteligente, com ideias. O que ela fala, a gente precisa considerar, como todos os outros.

O que eu acho triste mesmo, e lamento muito, é quando o Carnaval, que é um momento de celebração, tem que virar caso de Justiça. Isso, para mim, aponta que nós temos questões muito estruturais para preservar o que é o DNA dessa festa.

A criação de um novo circuito é uma necessidade? Que critérios precisam ser considerados para essa decisão?

Eu sou das pessoas que nunca levam as paixões ou os ranços para uma avaliação. Então, não tenho nenhum tipo de preconceito com o debate sobre o novo circuito. Agora, eu repito a forma como isso deve acontecer: a partir de uma avaliação de todos os agentes envolvidos desde o primeiro momento.

O que a gente não pode admitir é primeiro, uma decisão que seja de poucas pessoas e que depois os outros todos tenham que se adaptar. E pior ainda é retomar a lógica do Carnaval da segregação. Isso nós viemos superando ao longo dos últimos anos, quando o poder público assumiu mais as grandes contratações, fazendo-as se apresentarem sem corda na avenida. Isso contribuiu muito para reduzir a barreira da segregação no Carnaval de Salvador.

O que a gente não pode é pensar em outros formatos que voltem a essa lógica. O Carnaval está em um caminho irreversível de se afirmar como uma festa do povo – que é o que ele é por essência.

Secretário de Cultura da Bahia, Bruno Monteiro, em entrevista ao A TARDE durante transmissão do Carnaval 2026 | Foto: Raphael Muller / Ag. A TARDE

De fato, a valorização da pipoca ficou evidente neste Carnaval. Essa tendência aponta para um possível enfraquecimento do modelo tradicional dos trios com cordas?

Nós temos vivido no Brasil, especialmente na Bahia, no pós-pandemia, o aumento dos eventos culturais gratuitos, especialmente musicais públicos. As pessoas estão indo muito mais a eventos de graça do que pagando ingressos.

Se a gente fizer um retrospecto, pouquíssimos artistas realizaram grandes shows de estádio nos últimos anos, algo que era muito comum até alguns anos atrás. Essa é a tendência. No Carnaval não é diferente. E, no caso do Carnaval, o que está se comprovando com as pipocas de grandes artistas é que esses ambientes, até enfrentando um discurso preconceituoso de anos atrás, não são de confusão, de guerra. Deixa o povo na rua curtir o seu artista que está tudo bem. As pessoas vão lá para se divertir. A gente vê isso com o BaianaSystem, Ivete Sangalo, Daniela Mercury, Léo Santana, Igor Kannário. Cada um com um perfil de público diferente.

O povo de fato está indo lá curtir o seu artista de graça. É a parte talvez mais bonita do Carnaval, mais linda, que é essa diversidade de pessoas podendo curtir plenamente na rua, sem uma corda ou sem uma camisa para poder brincar o Carnaval.

Falando em diversidade, de que maneira o Carnaval pode equilibrar a força das tradições — como os blocos afro — com as novas tendências musicais e artistas emergentes, sem que uma dimensão ofusque a outra?

O Carnaval da Bahia guarda identidades que o diferenciam dos demais. Aqui é a terra dos blocos afros, do afoxé, do trio elétrico, aqui nasceu a axé music há 41 anos. Considero que a gente consegue viver um Carnaval hoje em dia preservando essas tradições, ao mesmo tempo que é aberto às novas tendências, mostrando que uma coisa não exclui a outra. E sobre os blocos afros, de forma especial, eu tenho muito orgulho de fazer uma avaliação de quanto o crescimento do apoio que o governo da Bahia dá aos blocos afros.

Só na gestão do governador Jerônimo Rodrigues, triplicou o programa Ouro Negro. Veja o quanto isso resulta no empoderamento desses blocos. Porque não é só que eles estão recebendo mais dinheiro para se apresentarem, mas há hoje um trabalho de apoio e reconhecimento ao que eles realizam nas comunidades durante o ano todo.

O senhor afirma que o Carnaval do Pelourinho consolidou o Centro Histórico como espaço da cena alternativa e da participação familiar. Quais elementos do modelo adotado foram decisivos para alcançar esse resultado?

Com mais de 600 mil pessoas que passaram pelos portais de segurança este ano e quase zero índice de registros de violência, o que o Carnaval do Pelourinho nos ensina a cada ano é que a força do Centro Histórico reside na cultura. Isso nós comprovamos porque dinamizamos culturalmente o Pelourinho ao longo de todo o ano. Mas especialmente no Carnaval, porque ali a cultura é o grande motor do desenvolvimento.

O Pelourinho se consolidou como esse lugar das famílias, mas também da cena alternativa. Nós tivemos este ano grandes shows. Vou dar exemplos que são incríveis no Pelourinho e que eu não sabia se teriam a mesma adesão num trio elétrico: Márcia Short convidando Lazzo Matumbi e Aloísio Menezes, Criolo e Nação Zumbi. E acrescentaria Chico César. Quatro shows bem diferentes e que foram, na minha opinião, perfeitos porque foram no Pelourinho.

Tem essa compreensão também daquele espaço e a gente tem muito orgulho de ver o quanto esse Carnaval do Pelourinho se consolidou como esse lugar da paz, da diversidade das famílias.

Secretário de Cultura da Bahia, Bruno Monteiro

Secretário de Cultura da Bahia, Bruno Monteiro | Foto: Lucas Rosário (Secult)/ Divulgação

A ampliação do Carnaval em 2027, com um dia a mais de programação, pode realmente ajudar a distribuir melhor o público?

Quando soube pela imprensa do anúncio do prefeito, embora não tivesse um detalhamento maior, entendi pelo calendário do ano que vem, pela data do Carnaval e a coincidência com o Dia de Iemanjá, como isso foi formulado. Eu vejo como algo positivo, desde que represente uma distribuição das atrações. O que eu falei dos dois circuitos, serve também para um novo dia. Se isso representar diluir mais as atrações, vai ser positivo. Agora, se for mais um dia para a gente repetir a fórmula dos dias anteriores, só vai ter mais um dia de problema.

O senhor defende uma avaliação imediata e conjunta do Carnaval. Considerando que a Prefeitura de Salvador é peça central na organização da festa e que estamos em um ano eleitoral, como está o diálogo entre Estado e Município? O senhor acredita que haverá alinhamento para planejar o próximo Carnaval?

A relação hoje é pontual e objetiva, eu definiria assim. Para qualquer tipo de debate necessário e mais aprofundado sobre o Carnaval, eu considero que ele precisa estar desarmado politicamente. E da parte do Estado pode ter absoluta certeza de que nós assim o faremos. E queremos fazer, porque a presença do Estado no Carnaval de Salvador é fundamental e é crescente.

Todo mundo reconhece isso. Nós temos disposição de fazer o debate dessa forma, sem querer impor nada, mas também sabendo da nossa responsabilidade. E eu não estou falando só da parte cultural e do evento. A segurança pública é fundamental. Eu, sendo Estado, não realizo nenhuma atividade, em qualquer lugar – um evento, um show, uma feira –, sem dialogar antes com a segurança pública. Isso é algo fundamental.

Agora nós queremos fazer essa discussão sobre todos os aspectos. A gente não vai fazer uma discussão de forma superficial. Por exemplo, a questão do trabalho decente é algo de que não abrimos mão. Nós temos feito disso uma agenda crescente ao longo dos últimos anos, por uma determinação pessoal do governador Jerônimo Rodrigues. Isso tem se dado no apoio aos catadores de materiais recicláveis, no apoio aos cordeiros e cordeiras, no apoio aos ambulantes.

Agora, nós queremos isso de uma forma mais ampla na cidade. Porque, na minha opinião, é inadmissível ter se naturalizado a situação humilhante e vexatória que os vendedores, especialmente as vendedoras ambulantes – porque a maioria são mulheres – passam no Carnaval. Quando eles se tornam praticamente garotos-propaganda de uma marca de cerveja e não recebem nenhum tipo de condição decente para trabalhar. Famílias, às vezes, que ficam duas semanas morando na rua, dormindo embaixo de isopor para conseguir ganhar um dinheiro. Nós queremos fazer esse debate.

É inadmissível a situação humilhante que os vendedores passam no Carnaval

Raio-X

Jornalista, produtor e gestor cultural, Bruno Monteiro tem 42 anos e é secretário de Cultura da Bahia desde janeiro de 2023. Como gestor, foi chefe de gabinete no Ministério dos Direitos Humanos e no Ministério das Políticas para as Mulheres, além de assessor especial da Presidência da República. Como produtor, trabalhou com diversos artistas, incluindo Caetano Veloso. É presidente de honra do Conselho Estadual de Cultura da Bahia e integra o Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes Estaduais de Cultura.



Fonte: A Tarde

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