A distribuição das verbas públicas destinadas à apresentação de artistas nos festejos juninos dá bem uma ideia da importância do planejamento visando ao bem comum. O reparte previsto pode gerar um efeito protetivo parcial, com a reserva de 25% destinada exclusivamente para as rubricas “atrações locais” e “forró tradicional”.
O percentual é tido como um avanço na autoavaliação do governo da Bahia, ao divulgar novas diretrizes. Uma questão empolgante para a pesquisa de manifestações culturais refere uma provável dificuldade de se estabelecer aspectos genuinamente ligados ao forró-raiz.
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Começa pela problemática do próprio gênero, tido como original, o pé de serra, pequenos conjuntos formados por sanfona, zabumba e triângulo. Caso esta combinação seja tomada como paradigma, possivelmente serão escassas as bandas candidatas aos contratos com as prefeituras.
A tarja de atração local ou não parece fácil até verificar-se, nos detalhes, as misturas provenientes de influências as mais diversas atiradas ao caldeirão cultural. Outro complicador é a gênese dos gêneros, a exemplo do vestuário das festas juninas, tido como detentor da tradição, sob forte influência das quadrilhas francesas. Ora, se o olhar conservador fosse capaz de abortar ritmos e danças, o forró, o xaxado e o baião, hoje chamados “autênticos”, não teriam as feições como as conhecemos.
Disso tudo, resta provado o acerto do governo da Bahia ao tentar equilibrar o “anarriê”, embora carregue o efeito colateral da dificuldade de definir critérios e fazê-los valer. O meio-termo é o melhor método, quando se procura ajustar interesses contraditórios.
Nem ficar à mercê do mercado, evitando a preferência de quem tiver público, toque o que tocar; tampouco matar por asfixia adeptos do resfolego da sanfona até o sol raiar. Que o forró possa resistir, muito bem protegido, mas não há como evitar as mutações – a boa gestão conduz este histórico atrito com menor dano.