Historiadora Alessandra Cruz –
O samba não nasceu de um registro em cartório, mas dos caminhos da escravidão e da diáspora africana no Brasil. “Nas cidades ou zonas onde havia uma grande concentração de africanos, fruto da própria escravidão, você verá o surgimento de vários gêneros de samba”, conta a historiadora Alessandra Cruz, nesta entrevista ao A TARDE.
Filha do cantor e compositor Chocolate da Bahia, Alessandra começou a ouvir as histórias das rodas de samba ainda na infância e pesquisou o gênero durante o mestrado em História.
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Para ela, mais do que uma forma musical, o samba foi um instrumento de sobrevivência e afirmação. “O samba é muito responsável pela resistência dos africanos no Brasil”.
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Nas rodas, diz, corpos e histórias negados pela escravidão reencontravam sua humanidade e sua voz.
A historiadora relaciona a origem do samba ao protagonismo negro na formação cultural do país e ao próprio Carnaval de Salvador, onde esses elementos ganharam as ruas e se consolidaram como expressão central da festa.
“A música, a cultura e a roda foram instrumentos de luta e de resistência”, explica. Saiba mais na entrevista a seguir.
O Carnaval de Salvador deste ano adota como tema “O Samba nasceu aqui”, marcando os 110 anos do primeiro registro oficial do gênero. Como você recebeu a notícia dessa homenagem? O Carnaval deve muito ao samba?
Eu criei uma grande expectativa, mas confesso que ela vem hoje carregada um pouco de frustração. Hoje há uma revisão historiográfica e esse marco dos 110 anos é bem pouco adotado pelos historiadores como origem do samba. Insiste-se como algo mais da mídia, mas o samba é mais antigo. Ele tem outros marcos, inclusive de gravações discográficas e de registros históricos. Mas esse não é o ponto central.
Criei uma grande expectativa que os gestores, com o samba como tema do Carnaval, dariam um espaço maior tanto de pesquisa como reconhecimento aos nossos sambistas.
Com o tema ‘O samba nasceu aqui’, achei que reconheceriam os sambistas que iniciaram essa tradição e passaram adiante. Espero que ainda chegue esse momento e os gestores e a própria sociedade deem ao samba esse reconhecimento. Isso não pode ficar só como slogan do Carnaval.
Você acredita que, apesar do reconhecimento do tema, o espaço para o samba ainda é muito restrito no Carnaval?
O espaço do samba é reconhecidamente a Praça da Cruz Caída. Enfim, o Carnaval deveria ser realmente uma festa que espelhasse essa preocupação, até para chamar atenção para artistas que hoje estão com grandes cachês, tomando conta dos espaços todos.
O Carnaval deveria mostrar como o samba é responsável não só pelas células rítmicas dos outros gêneros musicais, mas pelas matrizes poéticas, pelos homens e mulheres que sempre resistiram a partir dessa festa.
Se hoje Salvador é tão reconhecida como uma cidade culturalmente potente, com infinitas musicalidades e performances artísticas – poderia citar desde o cinema, com Wagner Moura que hoje está concorrendo ao Oscar – isso se deve aos sons, o jeito de pensar o mundo que os africanos na diáspora escolheram para lutar e resistir. E a cultura foi uma.
Qual é a influência do samba em sonoridades como o ijexá, o afoxé e o samba-reggae?
Quando a gente vai para a própria história do Carnaval, no final do XIX, vê o espaço da festa sendo apropriado pelos escravizados e, no início da república, por homens já livres.
Os corpos negros que estão no carnaval disputam esse espaço. Na verdade, protagonizam a cena. E isso avança. No período republicano, nós temos as batucadas que são muito importantes. Riachão conta que, no início do século, começou nas batucadas.
O samba realmente tomava conta. Isso não é só algo evidenciado nas narrativas dos sambistas, está nos jornais. A minha pesquisa mesmo foi muito a partir do que encontrava de evidências nos jornais, porque nem sempre você tem sambista vivo para dar depoimento. E os jornais estão lá.
Tanto o jornal racista, que quer fazer uma limpeza étnica, uma desafricanização dos costumes e vê o samba como uma permanência. E eles estão o tempo inteiro denunciando a presença do samba. E aí você percebe como o samba está genuinamente nos espaços do Carnaval.
Aí você tem os afoxés nas décadas de 40. Você tem também o auge das escolas de samba. Isso é muito importante, a gente esquece. Na década de 60 e parte de 70, ainda temos desfiles de escolas de samba no Carnaval de Salvador. Isso mostra como ele estava muito consolidado.
As transmissões de ritmistas, quem aprende a tocar os vários instrumentos, os sambas enredos, quem está curtindo o samba… Aí lembro que as escolas de samba não eram só no dia do Carnaval.
Elas alimentavam durante o ano inteiro toda a população que iam ver as grandes atrações do carnaval. Quando esses desfiles terminam já tem os blocos de índio e os grandes blocos afros.
Como o samba foi incorporado pelos blocos afros?
Muitos ritmistas que estavam nas escolas de samba passam para esses novos espaços, porque as escolas já não conseguem mais disputar com trio elétrico. E muitos dos compositores. A primeira música do Ilê Aiyê é de Paulinho Camafeu, que vem do samba.
Enfim, todos esses gêneros, você percebe como eles vão alimentando a nossa cultura. E o que há de genuinamente popular, canal de expressão, das suas leituras de mundo. Batatinha, Riachão, todos eles acompanham esse movimento cultural. E aí você lembrou essa chave que a gente já associa – o samba, samba-reggae, a música afro. Mas até o axé music leva a influência do samba.
Luiz Caldas é uma grande estrela do axé music. E as duas músicas que iniciam e consolidam a carreira de Luiz Caldas para o Brasil vêm do samba.
Uma delas, o Fricote, é composta por Paulinho Camafeu, e Haja Amor, que é um hino composto por Chocolate da Bahia. Dois artistas do Mercado modelo, ligados profundamente ao samba, ao samba de roda, as rodas do mercado. Perceba a responsabilidade do samba.
Saindo um pouco do Carnaval, qual é a importância do samba nas lutas de afirmação e valorização da cultura afro-brasileira?
Para pensar o samba na sua inteireza, não só pensar no gênero musical, é preciso lembrar que a violência contra esses homens e mulheres negras permanece após a abolição e está presente ainda hoje. Falo do Racismo institucional, o racismo estrutural. Há uma racialização, em alguma medida, inclusive de quem ganha os louros e quem lucra mais com a festa.
O samba é muito responsável pela resistência dos africanos no Brasil. E aí Salvador e Rio de Janeiro têm um papel importante. São os maiores portos. A gente tem quase dois milhões de africanos escravizados para o Brasil ao longo de mais de três séculos, do século XVI até o XIX. Intensamente este tráfico, inclusive do XVIII para o XIX, são milhões de africanos que entram aqui. Em Salvador, muitos veem da África Ocidental. Já no Rio de Janeiro, da África Central, de Angola.
Nesse processo, as culturas Iorubá e Banto são formadoras das células rítmicas, da forma de pensamento, das estruturas de resistência. A música, a cultura, a roda, foram instrumentos de luta, de resistência e de afirmação da dignidade humana, porque a escravidão e a colonização retiram isso. Você não é humano. Você é um instrumento de trabalho. E não pode sonha nem com a liberdade, nem com a comunidade, nem com a sua cultura. E eles foram negociando.
Por isso que chamo a atenção: o samba construir sua história muito antes de 1916. Você tem documentos durante o século XVIII, que aparece claramente no XIX, de escravizados negociando com o seu senhor o direito de folga. O direito de fazer suas festas, o direito de sambar. Que o Batatinha vai falar lindamente já e 50, em 60, quando ele disputa a música do carnaval e perde.
Durante 10 anos, Batatinha perde esses concurso de samba, veja que ironia. Porque a comissão dizia que o samba dele era muito triste. O samba dele não era muito triste. O samba dele cumpria uma tradição de,, pelo samba, denunciar a vida, o cotidiano desses homens negros e mulheres.
E todos eles, mesmo Riachão, as frases estão brincando, mas também estão denunciando a pobreza, muitos filhos, a fome. Isso vai para Chocolate da Bahia, que cantava que estava na roda de samba quando a polícia chegou. ‘Vai trabalhar vagabundo que o delegado chegou’. Isso é uma memória da repressão.
Mas é possível definir com precisão onde a tradição do samba teve início no Brasil? Ainda existe essa eterna polêmica sobre se foi aqui ou no Rio de Janeiro?
Eu diria, enquanto historiadora, que essas disputas simbólicas só interessam mesmo a indústria cultural, porque você não tem um marco, uma certidão. Como o meu pai brinca na música que ele fez, ‘tá registrado no cartório’. Mas o registro é: onde esses africanos chegam na sua maioria. Nessas cidades ou zonas onde há uma grande concentração de africanos, fruto da própria escravidão, você vai ter ali a origem de múltiplos símbolos e práticas culturais.
Nesses lugares, você vai ver o maior número de candomblés, da língua como permanece, das várias células rítmicas, inclusive dos vários gêneros de samba. É uma cultura que chega negociando a sua memória, as suas práticas com a realidade que encontra.
E um elemento-chave que a gente não pode perder na nossa compreensão. Quando eles chegam aqui encontram a força dos nossos povos originários. Muito do samba que é feito aqui, das religiões de matriz africana que reencontram aqui os seus fundamentos, vão ter a influência fundamental dos nossos povos indígenas. Nada que se criou no Brasil, no período da colonização, foge dessa influência. A gente pode querer invisibilizar, apagar a sua presença.
Mas a sua presença está onde tem o melhor couro, onde tem as sementes para fazer um instrumento, os motivos, as angústias, as tristezas de ver o seu mundo transformado. Na forma como ensinaram a plantar. Os quilombos reúnem indígenas e africanos ou afrodescendentes. Então, te respondo enquanto historiadora, que há os marcos, os espaços onde o samba, os batuques vão encontrar força e afirmação.
Porque eles vão se afirmando, porque a gente vai ter práticas culturais que vêm da África e infelizmente vão se apagando, porque escolhas são feitas nesse processo. No cativeiro, você precisa escolher. A música irmana com os nossos povos originários, que dançam, que escolhem os instrumentos, que também precisam daquele momento para resistir.
Chamo atenção que o Recôncavo acolheu milhares de africanos, africanidade pulsa lá, mas Salvador em muitos momentos fez um samba importante que olhou para o Recôncavo. Porque Salvador foi alimentada pelo recôncavo, então ele está certo quando ele diz nasceu no recôncavo, mas Salvador foi uma cidade que se alimentou desse Recôncavo.
Essa é uma metáfora, mas realmente a cidade passava fome se não tivesse o Recôncavo. Na luta pela independência, o Recôncavo abasteceu Salvador de alimentos, de homens, da força de trabalho, mas também dessa cultura.
O Porto de Salvador foi, por muito tempo, um dos mais importantes do Hemisfério Sul. Isso certamente contribuiu para essa riqueza cultural?
Salvador, por ser essa cidade cosmopolita, dialogando com esse Atlântico, construiu outros canais fundamentais. A comunicação chegava muito via Atlântico. Informações sobre o que está acontecendo e o samba reflete isso. Eles dão essa atmosfera da expectativa pela liberdade.
A revolução do Haiti, no final do Século XVIII e início do XIX, alimenta a esperança desses sambas. E, tanto lá como aqui, os toques dos tambores vão ser fundamentais para a preparação das revoltas.
Quando João Reis, grande historiador, pesquisa sobre a Revolta dos Malês, fala sobre a importância da linguagem a partir dos atabaques.
O samba também tem uma ligação muito forte com o candomblé?
Está muito presente tanto no respeito, enquanto está numa roda de samba, que poderia ser o lugar mais permitido da dança, da umbigada despretensiosa, mas que está ensinando o jogo do corpo. Porque aquele corpo que está sendo violentado e normatizado de que ele não é humano, não pode sonhar com a liberdade. Na roda de samba ele se humaniza.
Ele mostra dança, sensualidade, força, memória. O corpo fala: memória não é o senhor. O senhor, pelo contrário, é seduzido por esses rituais. Porque o samba tem a mesma sofisticação de uma orquestra. Ele tem os toques, tem o momento, tem as danças. Tanto que você está vendo hoje o grande destaque no noticiário do Brasil: as digitais influências, as mulheres que não sabem sambar. Porque não é algo que eu vou lá e sambar, por mais que ele abrace a todos. Não é uma dança como um balé que você precisa ter um corpo muito bem-adaptado para executar.
O samba ele é feito para acolher. É feito exatamente para que qualquer pessoa consiga mexer seu corpo. Mas até mexer o corpo é algo que, se você não tem um posicionamento, você trava. É por isso que a gente hoje tem na psicologia, fazer o corpo destravar aquilo que está muito tenso. Então, tem toda uma sofisticação. Ele é uma escola. O samba ensina os versos, ensina a sua humanidade, fala de locais da África.
A relação com o candomblé é muito importante para dissimular. Historicamente tivemos essa necessidade de dissimular para o senhor não pensasse que estavam desrespeitando religião oficial. Eles jamais poderiam fazer isso porque religião é algo fundante na colonização. O padre precisa ser o único especialista no sagrado. Como esses africanos vêm com uma capacidade de sacralizar outros homens ou árvores, como os nossos indígenas, eles têm que dissimular. Porque entendem muito claramente o jogo da dominação.
No samba, você está preservando entidades religiosas, toques sagrados, mas que precisam de atos para acontecer. Mas eles dissimulam sim, porque você pede ao senhor autorização para folgar. E ali você preserva elementos importantes. Empresta sua base rítmica, seus homens para que construam os atos e os rituais nas igrejas. Tudo que você imaginar que acontece no Brasil, durante o período da escravidão, tem braço de africano escravizado, até na música erudita. O samba está presente nas execuções das nossas músicas, em tudo.
Por que essa importância ainda está tão distante do conhecimento da maioria dos brasileiros?
A forma como a nossa história foi transmitida durante séculos dizia qee África não tinha história e que os escravos também não, o que interessava era a história da colonização. Temos uma lei recente de 2003, a lei 10.639, que obrigou o ensino da história da África e dos afro-brasileiros.
Depois é editada em 2008 pela lei 11.000 que acrescentou a história indígena. Portanto, tudo é muito recente. Mas falta investimento para que se pesquise sobre o passado, para que isso não fique só na seara dos historiadores, dos intelectuais que estão pesquisando, e que estão encontrando nos papéis, nos arquivos essa memória.
Mas que possa ser disseminada na educação básica, inclusive como ações afirmativas de combate ao racismo. Porque muito do que a gente tem ainda hoje é desacreditado.
Nesse sentido, o fato de o samba de roda ter sido reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco tem grande importância?
É fundamental a gente reconhecer o patrimônio imaterial, porque durante muito tempo era apenas o patrimônio material que estava sendo tombado. E gente tem o acarajé, a capoeira, o samba de roda, os instrumentos musicais, as festas. E tudo isso é patrimônio imaterial, simbólico, e é fundamental esse reconhecimento.
Mas o que a gente precisa cada vez mais é que as políticas públicas deem sentido aquilo que às vezes vem como uma grande reivindicação dos movimentos sociais. Essas reivindicações são transformadas em lei, mas que perdem às vezes a força.
O samba precisa ser um patrimônio internalizado pelos nossos gestores. Eles precisam entender que o melhor turismo em Salvador é o turismo histórico, é o turismo cultural.
É ele que vai atrair os turistas do mundo inteiro que são ávidos de conhecimento. Quando a gente está falando de samba, a gente está falando de séculos de uma cultura.
Falando em turismo e retomando um ponto do seu trabalho: como foi o período do Estado Novo, com a repressão ao samba e às rodas, especialmente em locais como o Mercado Modelo? E qual foi a importância de sambistas como Riachão e Batatinha na consolidação dessa cultura e no enfrentamento ao racismo institucional da época?
Muito boa essa questão, porque retoma uma coisa que é fundamental. A década de 30 é um período profundamente racista na nossa história e é surpreendente. Porque a gente pensa que naquela década, com a publicação de Casagrande & Senzala, de Gilberto Freyre, do Elogio do Mestiço, seria diferente.
Mas a década de 30 reescreve um anseio das nossas elites racistas de tentar, inclusive via leis e projetos eugenistas, tentar fazer uma limpeza racial. E nessa política cultural a gente tem novamente, por via do que seria uma ideologia trabalhista, a repressão de sambistas, capoeiristas que tradicionalmente se apresentavam, reforçavam e reafirmavam essa cultura nas praças, nas ruas, nos mercados. Eles não iriam se apresentar em teatros.
E aí você citou o mercado Modelo, que desde o século 17, era um espaço ocupado pela população afrodescendente, que permaneceu como trabalhadores. E aí tocavam nos seus intervalos. Inclusive os ganhadores, que eram escravos africanos, que carregavam a cidade inteira, eles cantavam o tempo inteiro.
Aquela cena tão triste de se ver hoje – homens carregando outros homens nas cadeirinhas, eles cantavam o tempo inteiro. São tradições musicais que estão ali. Os homens trabalhando e as mulheres vendendo. E o Mercado Modelo é um símbolo emblemático, porque representa muitas feiras, muitos mercados, onde você vai ter essa população lutando pela sobrevivência, tentando combater a fome, que é algo que permanece muito presente no cotidiano.
E o mercado foi um centro importante, que aprofundo um pouco mais a pesquisa, porque é onde Chocolate da Bahia, que é meu pai, conta e eu ouvia desde criança essa memória das rodas de samba do mercado mundial.
O Mercado Modelo reuniu muitas figuras emblemáticas do samba?
Muitas figuras como Camafeu de Oxóssi, Mestre Babalô, que era um sapateiro, que tinha as rodas de samba muito importantes em Pau Miúdo. E, depois, sambistas como Riachão, que desde criança, jovenzinho, foi discípulo desses mestres de alfaiataria.
Descendo e subindo a Ladeira da Misericórdia, indo almoçar às vezes no Mercado Modelo, ouvia o samba. É essa cultura ampliada que reforça naquele menino que tem um talento. Que aprende um verso ali na hora do almoço, e chega na batucada no Carnaval, canta e ouve a resposta. E que diz: bom, eu tenho um talento, eu tenho um alvo. E é essa cultura que abraça eque não deixar morrer o que o Estado, inclusive o que regime do Estado Novo de 1937 até 1945 vai perseguir.
Você tem matérias que vai dizer: o samba veicula uma ideologia contrária ao programa do governo de divulgar a importância do trabalhador. Como esse ser nacional, que abre mão, e que vence a pobreza pelo trabalho. O sambista vai dizer: Êpa, eu trabalho a minha vida inteira e nunca saí da pobreza.
Nilson Batista vai dizer: ‘Meu pai trabalhou tanto que eu já nasci cansado’. Batatinha vai dizer: ‘Trabalho feito louco, meu corpo é quase morto, e o que eu ganho não dá nem para me alimentar’. Riachão vai dizer: ‘Pobre carregado de filho, se acaba de trabalhar, e se ele não trabalhar, ele é um louco’. Chocolate vai dizer: ‘A vida de pobre é panela no fogo e barriga vazia’.
Então eles vão cantar as suas condições de subsistência e vão enfrentar de forma muito dissimulada, mas que alguns ideólogos do Estado Novo conseguem enxergar. Tanto que um dos aspectos da minha dissertação, um capítulo, é uma revista que foi editada pelo DIP, Diretório de Imprensa e Propaganda do Estado Novo, 41 a 45, essa revista era veiculada, a revista Cultura Política, e aí tem um articulador, Martins Castelo, que é da área de música e de rádio.
Ele transita por esses mundos, e ele vai dizer: É um absurdo vocês permitirem o samba na rádio. Porque esse samba aparentemente ingênuo tem um conteúdo subversivo. Então, ao mesmo tempo que Getúlio Vargas enxerga a popularidade do samba, como ele vence nas disputas simbólicas inclusive com os músicos eruditos. A gente tem na semana de 1922, o Movimento Modernista, tem muitos intelectuais. Ainda nessa década a intenção deles é: vamos nacionalizar a música erudita.
Vamos pegar ritmos populares para serem tocados nas orquestras. Mas não popularizar o samba. Só que eles perdem. A indústria fonográfica ávida, o capitalismo já estava ali para vender, vai atrás: o que as pessoas ouvem, cantam? O samba. Ninguém canta música erudita. Nessas disputas, o samba venceu. Mas venceu por ele, não por uma política pública. O Estado teve uma política pública de tentar nacionalizar a música erudita. Ele patrocinou os cantos orfeônicos, junto com Villa Lobos, de educar o povo pelas massas.
Na letra de mundo deles, era dar uma educação musical. Mas, ao mesmo tempo, era desafricanizar. Era apagar a cultura musical africana, indígena, popular, de resistência, subversiva, que não era ordeira. Ele mexe com as estruturas e tem que mexer porque o projeto do estado era deixar eles no mesmo lugar. Era deixar você pobre. Você subalternizado, sempre no limite da fome, poque você aceita qualquer coisa.
Raio-X
Alessandra Carvalho da Cruz é historiadora, graduada pela Universidade Católica do Salvador (Ucsal), com especialização em História da Bahia pela Universidade Estadual de Feira de Santana (2005), e mestrado em História Social pela Universidade Federal da Bahia (2006), com pesquisa sobre a história do samba no período republicano, música, imprensa e história oral. É professora assistente da Ucsal, onde leciona as disciplinas História da África, História da Cultura Indígena e Africana no Brasil, História da América e Ensino de História da África. Na pós-graduação em História Pública da Bahia e Ensino de História, coordena a linha de pesquisa em História Social Afro-Brasileira e Indígena.