Após anos de perda de dinamismo, fechamento de fábricas e saída da Ford, o Polo Industrial de Camaçari voltou ao centro da estratégia de desenvolvimento da Bahia. O novo ciclo é impulsionado por investimentos como a chegada da BYD, a retomada da Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados (Fafen-BA) e a inauguração de uma unidade da Unipar.
Mesmo com as dificuldades enfrentadas pelo setor petroquímico no Brasil, a diversificação das atividades e os investimentos em descarbonização buscam reposicionar o Polo de Camaçari em meio às transformações que vêm redesenhando a indústria mundial. Hoje, com mais de 80 empresas em operação, o Polo gera mais de 50 mil empregos (10 mil diretos e 40 mil indiretos) e contribui com uma arrecadação superior a R$ 4 bilhões por ano em ICMS para o estado.
Esse ambiente de retomada ganhou força simbólica durante a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Fafen-BA, no último dia 15 de maio. Ao lado da presidente da Petrobras, Magda Chambriard, de ministros e do governador Jerônimo Rodrigues, Lula celebrou a retomada das atividades da fábrica como um grande momento para o Brasil. Já Jerônimo afirmou que a reabertura representa “um passo decisivo para a reindustrialização da Bahia”.
Com investimento de R$ 100 milhões da Petrobras, a Fafen-BA já opera com cerca de 90% da capacidade, produzindo diariamente 1,3 mil toneladas de ureia e 1,3 mil toneladas de amônia. A unidade atende cerca de 5% da demanda nacional por fertilizantes nitrogenados, considerados estratégicos para o agronegócio e a segurança alimentar do país.
Outro marco desta nova fase do Polo foi a inauguração da fábrica da Unipar, em abril de 2025. Com energia elétrica 100% renovável, a unidade tem capacidade para produzir anualmente 20 mil toneladas de cloro, 22 mil toneladas de soda cáustica, 23 mil toneladas de ácido clorídrico e 160 toneladas de hipoclorito de sódio. A produção deve atender principalmente à expansão do saneamento básico prevista no marco do setor, além da indústria de produtos de higiene e limpeza.
Dos novos empreendimentos, o que mais repercutiu foi a chegada da fabricante chinesa de veículos elétricos BYD. A escolha de Camaçari para a instalação da fábrica colocou o Polo em posição estratégica no mercado de mobilidade elétrica. Isso porque, além de fortalecer a indústria automotiva, o investimento abre espaço para o desenvolvimento de novas cadeias produtivas, como as de autopeças e componentes para veículos elétricos.
Cautela predomina
Mas, apesar do ambiente de retomada, empresários, economistas e especialistas ouvidos pela reportagem de A TARDE evitam tratar o momento como uma recuperação consolidada. O discurso predominante é de cautela. Há otimismo com as oportunidades abertas pela transição energética e pela eletromobilidade, mas também preocupação com gargalos históricos que seguem sem solução.
Para o superintendente do Comitê de Fomento Industrial de Camaçari (Cofic), Aurinézio Calheira, o cenário internacional ainda é adverso, especialmente para os setores químico e petroquímico. Mesmo assim, ele avalia que os novos investimentos confirmam a capacidade de atração do Polo.
“O cenário macroeconômico atual é bastante desafiador, com persistência de ciclos de baixa em segmentos industriais importantes, a exemplo do químico e petroquímico, e incertezas decorrentes das tensões geopolíticas globais”, avalia Calheira. “Apesar disso, a implantação de novos empreendimentos, com destaque para BYD e Unipar, bem como a ampliação de capacidades produtivas e retomada das atividades de unidades industriais importantes, a exemplo da Fafen, confirmam a resiliência e o potencial de atratividade do Polo”.
O gerente do Observatório da Indústria da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), Ricardo Menezes Kawabe, também vê sinais positivos, mas evita tratar o momento como uma virada definitiva. Para ele, parte do que hoje é visto como novidade representa, na prática, uma recuperação de capacidades que a Bahia já teve no passado.
“A Fafen sempre existiu, aí paralisou, agora está sendo resgatada. Na prática, a Bahia não está aumentando sua capacidade, ela está retomando uma capacidade que sempre teve desde os anos 70”, diz.
O mesmo raciocínio, segundo Kawabe, vale para a chegada da montadora chinesa de carros elétricos. “A BYD é muito importante, mas a gente já teve a Ford que fechou. Então ela vai ocupar um espaço que a Ford tinha na economia. A boa notícia é que ela está ocupando um espaço com um potencial excelente, porque o mundo tende a ir para esse caminho da eletrificação.”
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Crise da Petroquímica
A avaliação é semelhante à do economista Armando Avena. Para ele, o novo momento do Polo ainda precisa ser analisado com realismo, principalmente diante da crise vivida pela petroquímica brasileira. “A situação da petroquímica no Brasil hoje é muito difícil”, resume.
Segundo Avena, o principal problema estrutural está no custo da matéria-prima utilizada por essas indústrias. “A petroquímica baiana é baseada em nafta e ela tem que importar uma boa parte dessa nafta. Isso faz com que ela seja menos competitiva do que os grandes mamutes petroquímicos da Arábia Saudita e dos Estados Unidos”, afirma.
Essa análise do cenário é compartilhada também por quem atua diretamente no segmento, como o diretor industrial da Braskem na Bahia, Carlos Alfano. “O setor petroquímico vive um ciclo de baixa, com menor demanda e excesso de oferta, agravado pela entrada de produtos importados a preços reduzidos artificialmente, o que pressiona a competitividade da indústria nacional”, afirma.
O executivo também aponta dificuldades estruturais relacionadas ao custo da matéria-prima. “Há desafios estruturais, como o maior custo da nafta em comparação ao etano utilizado por concorrentes internacionais”, diz. Nesse contexto, ele defende políticas industriais voltadas ao fortalecimento da produção local como instrumento essencial para garantir a resiliência e a sustentabilidade do setor.
Segundo Alfano, a Braskem, por ocupar posição estratégica como empresa âncora do Polo e fornecedora de insumos para diversas cadeias produtivas, vem atuando com foco em eficiência operacional, disciplina financeira e inovação. Na avaliação do executivo, o Polo vive hoje “não exatamente um novo ciclo de expansão, mas uma fase de adaptação estratégica” diante das mudanças no mercado global.
Já Avena observa que algumas mudanças recentes podem melhorar o ambiente do setor. “A Braskem estava fazendo movimentos no sentido de reduzir sua dependência de nafta. Além disso, foi criado também o Presiq (Programa Especial de Sustentabilidade da Indústria Química), que dá uma série de incentivos e melhora a situação do setor. Esse programa foi fundamental para que a indústria petroquímica possa sobreviver.”
O economista acredita que o futuro do Polo passa diretamente pela situação da Braskem. Para ele, a entrada da Petrobras na operação da empresa pode abrir um cenário mais favorável. “Já que a Petrobras entrou, ela pode fornecer uma nafta mais barata. Aí é possível que haja uma retomada com mais competitividade.”
Ricardo Kawabe também avalia que a perda de competitividade do setor petroquímico começa pelo custo da matéria-prima. “Enquanto países como os Estados Unidos utilizam majoritariamente gás natural barato como base da produção, a indústria instalada no Polo depende fortemente da nafta”. Mesmo em um cenário de migração para o gás natural, diz ele, o Brasil continuaria em desvantagem. Kawabe destaca que o gás natural nos Estados Unidos custa cerca de US$ 3, enquanto no Brasil ultrapassa US$ 15.

Diferença de escala
Outro fator apontado por ele é a diferença de escala produtiva entre o polo baiano e os grandes concorrentes internacionais. De acordo com Kawabe, o complexo industrial de Camaçari foi concebido há décadas para abastecer principalmente o mercado interno brasileiro, enquanto plantas industriais mais recentes, instaladas na China, nos Estados Unidos e no Oriente Médio, já nasceram voltadas para a disputa global. “E a indústria é 100% dependente de escala”.
Diante desse cenário, Kawabe defende que o país precisa discutir qual estratégia pretende adotar para preservar sua base industrial. Segundo ele, abrir completamente o mercado sem mecanismos de proteção ou incentivo pode comprometer a sobrevivência da indústria nacional. “A pergunta que o país precisa fazer é: eu vou deixar a minha indústria morrer ou vou fazer o possível para manter essa indústria ativa?”, questionou.
O ex-senador e ex-ministro Waldeck Ornélas, especialista em planejamento regional, segue a mesma linha de avaliação de Ricardo Kawabe e afirma que o Polo Industrial de Camaçari perdeu protagonismo ao longo das últimas décadas por falta de atualização tecnológica. “Embora continuemos sendo o maior complexo industrial integrado do Hemisfério Sul, você tem problemas de escala de produção nas plantas. É preciso recuperar isso”, diz ele, que acaba de lançar o livro Bahia – Urgências do presente.
Papel estratégico
Ornélas também chama atenção para o papel estratégico da Braskem no futuro do Polo industrial de Camaçari. “Eu tenho uma expectativa muito grande a partir do equacionamento da situação financeira da Braskem e da operação pela Petrobras”, afirmou.
No fim de abril, a Petrobras assinou um novo acordo de acionistas da Braskem e decidiu não exercer os direitos que lhe permitiriam ampliar sua participação na empresa após a saída da Novonor do controle da petroquímica. Ainda assim, a Petrobras segue como uma das principais acionistas da Braskem, com 36,1% do capital total e 47% das ações com direito a voto. A estatal divide o controle da companhia com o fundo de investimentos IG4 Capital, que detém 50,1% do capital votante da empresa.
O foco dos entrevistados na Braskem não é por acaso. Com oito unidades industriais no complexo, a empresa responde por mais de 40% da capacidade instalada do Polo, com produção anual de 5 milhões de toneladas de petroquímicos básicos e resinas termoplásticas. A operação gera cerca de 7,5 mil empregos diretos e indiretos e movimenta mais de R$ 57 bilhões na produção estadual.
Nova frente
Enquanto parte da indústria tradicional luta para recuperar competitividade, a chegada da BYD abriu uma nova frente de expectativa em torno da eletromobilidade. Aurinézio Calheira afirma que os investimentos mais recentes reforçam a possibilidade de expansão de novas cadeias produtivas no entorno do Polo. “Os empreendimentos instalados mais recentemente confirmam essa possibilidade de ampliação das cadeias produtivas localmente.”
Ricardo Kawabe, porém, pondera que a cadeia de um carro elétrico é diferente da indústria automobilística tradicional. “Mesmo com toda a boa vontade da BYD, um carro elétrico não demanda a quantidade de peças que um carro a combustão demanda. A quantidade de fornecedores é menor.” Ainda assim, ele acredita que a montadora chinesa pode estimular novos investimentos.
Já Armando Avena vê sinais mais concretos de nacionalização da produção. “No início, a BYD trazia os kits prontos e montava os carros aqui. Mas isso vai acabar.” Segundo ele, a elevação gradual do imposto de importação deve acelerar a produção local. “A BYD já está começando a aumentar o índice de nacionalização. Já fez dois turnos e já vai começar o terceiro turno. Já está começando a fazer produção local e já está vendendo para o Mercosul.”
Avena acredita que isso pode favorecer o surgimento de uma nova cadeia automotiva na Bahia. “Ela já está mantendo contato com fornecedores e, com isso, você consegue montar uma cadeia produtiva no segmento automobilístico na Bahia.”
Gargalos antigos
Mesmo entre os mais otimistas, no entanto, há consenso de que o futuro do Polo depende da capacidade da Bahia de enfrentar gargalos antigos. Infraestrutura, logística, energia, mão de obra e segurança aparecem de forma recorrente. Ricardo Kawabe afirma que esses problemas têm sido relatados por empresas em praticamente todos os distritos industriais do estado. “No oeste, no CIA e em Camaçari, os dois problemas principais relatados pelas empresas são infraestrutura e mão de obra.”
Segundo ele, a dificuldade de contratação se tornou um problema generalizado. “Hoje existe um grande problema de falta de gente se candidatando às vagas. Todas as empresas estão com dificuldade em contratar.” Segundo ele, as empresas têm dificuldade até mesmo para atrair pessoas para as vagas abertas no setor industrial.“Hoje não é só a qualidade. É não ter interessado”.
O gerente do Observatório da Indústria também cita problemas estruturais dentro dos distritos industriais. “Se você rodar no Polo de Camaçari, vai ver muitas vias necessitando de manutenção, problema de iluminação, segurança. Ficar esperando ônibus às 17h ou 18h no CIA e no Polo traz apreensão para os trabalhadores.”
Aurinézio Calheira reconhece os desafios e afirma que o Cofic mantém diálogo permanente com o governo do Estado para enfrentar essas questões. Segundo o executivo, a chamada Agenda Positiva do Polo prioriza áreas estratégicas como “matriz energética e sustentabilidade, inovação e tecnologia, formação de mão de obra, infraestrutura, segurança pública e logística”.
Apesar de todos esses desafios, Waldeck Ornélas observa que Polo Industrial de Camaçari continua sendo o principal ativo da indústria baiana, ao lado da refinaria de Mataripe. Segundo ele, é o complexo que ainda sustenta o motor da economia industrial do estado. Por isso, avalia que a Bahia não pode perder capacidade de investimento e modernização no setor. “É preciso que o Polo esteja up-to-date para poder realmente sustentar a economia baiana para novos passos”, diz.
Na avaliação de Ornélas, apesar da retomada da Fafen, da chegada da BYD, da expansão da Unipar e dos novos investimentos anunciados, o Polo ainda não vive uma retomada consolidada do desenvolvimento industrial. Esse movimento, afirma ele, só será efetivo com o fortalecimento da petroquímica. “O agente básico é o revigoramento do complexo petroquímico”, acredita. “E esse processo passa necessariamente por um papel estratégico da Petrobras diante dos desafios enfrentados pelo setor”.