Saiu esta semana a lista de indicados ao 38° Troféu HQMIX, prêmio batizado carinhosamente de “Oscar dos Quadrinhos no Brasil”. E entre os concorrentes há trabalhos produzidos na Bahia. Daniel Cesart, Anderson Shon, Dyo, Isabella Ismil e Dan Borges representam o estado na competição criada em 1988 e cuja cerimônia de premiação deve acontecer no próximo mês, logo depois da Comic Con Experience.
Indicado nas categorias webquadrinhos, desenhista nacional, roteirista nacional e colorista nacional, Daniel Cesart é um dos destaques da cena baiana de quadrinhos. Na ativa desde 2007, quando passou em edital da Funceb, teve como primeiro trabalho uma peça chamada Dança em Quadrinhos.
“Não era um projeto em quadrinhos, com material impresso, mas foi ali que eu comecei a estudar design e diagramação”, conta Daniel. Os seus três trabalhos que concorrem no HQMiX são Depois da Última, Paralelos e Sob o Signo Ancestral.
Entre 2007 e 2020, o artista trabalhou em editoras e gráficas, onde aprendeu partes importantes da produção de quadrinhos, como a diagramação. Em 2023, Daniel lançou, em parceria com o roteirista Anderson Sohn, a história em quadrinhos Estados Unidos da África, o seu primeiro trabalho impresso, publicado através de financiamento coletivo.
“Depois desse trabalho, eu passei a me empoderar artisticamente, ganhei mais confiança”, assinala o quadrinista que integra o coletivo Bahia em Quadrinhos (BAQ), criado em setembro de 2025.
Os trabalhos Paralelos e Depois da Última podem ser acessados gratuitamente online através da página de Daniel no Instagram: @danielcesart. “O único que não está disponível gratuitamente é Estados Unidos da África, mas Anderson e eu deixamos alguns exemplares em bibliotecas públicas”, afirma.
Malês
O projeto mais recente de Daniel é A Última Revolta Malê, encomendada pela Malê Editora, do Rio de Janeiro, para marcar as comemorações pelos 10 anos de fundação dessa empresa. “Eles queriam fazer um quadrinho que contasse a história do levante dos Malês”.
Mas o artista baiano pensou que com a farta produção editorial existente sobre os malês convinha pensar em uma abordagem original: “Eu quis fazer algo que chame a atenção do leitor mais jovem, que traga essa história em uma linguagem contemporânea. E aí a gente faz uma história de terror tipo Sexta-feira 13”.
A inspiração para a história do HQ foi a notícia de que o crânio de um dos participantes da Revolta dos Malês, que estava em posse da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos, seria devolvido à Bahia. “Toda a história gira em torno desse crânio e o livro foi lançado na Bienal da Bahia”, declara o artista.
Outro lançamento com a assinatura de Daniel é a coletânea de mangás Crepúsculo Sentai: Alfa & Ômega, lançada no início do ano, em que o baiano assina a história Ori Rangers, uma versão dos Power Rangers a partir dos orixás.
Daniel também está presente na coletânea Lápis Cor de Melanina, organizada por Anserson Sohn, e que tem a participação do premiado cartunista Cau Gomez, colaborador de A TARDE, que assina a capa do livro. A obra contém 16 histórias concebidas a partir do compromisso com a inclusão social e a representatividade.
E 2026 está mesmo sendo um grande ano para Daniel, que estreia como editor, ainda este ano, lançando a coletânea Golaço, em que diversos autores, inclusive ele mesmo, narram histórias de sua relação com o futebol. “Eu fiz uma curadoria de autores do Brasil todo”, conta o artista. O livro vai ser lançado mês que vem na Comic Con, a CCXP, em São Paulo.
Para completar, a Fundação Pedro Calmon deve lançar em breve um catálogo com histórias feitas pelos alunos de uma oficina do Curso de Criação de Histórias em Quadrinhos, ministrado por Daniel na Biblioteca Central do Estado da Bahia, entre maio e junho deste ano.
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Amor eterno

Veterano, Hugo Canuto herdou o amor pelos quadrinhos do pai, com quem frequentava bancas e sebos na infância. Um amor que seria eterno. Hugo se formou em arquitetura pela Ufba, mas a paixão pelos desenhos falou mais alto.
“Eu busquei contar através dos quadrinhos histórias que se relacionassem com o nosso território, com a nossa identidade”, explica Hugo. Um dos seus trabalhos de maior repercussão é a série Contos dos Orixás, que, além do Brasil, foi publicada nos Estados Unidos pela Abrams ComicArts, que tem um selo voltado para autores negros e latinos. A obra venceu o Glyph Comic Awards e o Troféu Angelo Agostini, e foi finalista dos prêmios Jabuti, Ignatz Awards e Dwayne McDuffie Award.
Hugo já participou de exposições, palestras, oficinas e feiras no Canadá, Portugal, Angola, Alemanha, França e Estados Unidos. A sua publicação mais recente é Yemanjá, a Mãe das Águas. “Esse é o principal norte de meu trabalho”, declara o artista.
Hugo se orgulha de ter sido o primeiro quadrinista baiano a apresentar a sua obra em Angola, a convite do festival Luanda Cartoon. E também o único baiano entre os 30 artistas presentes no estande de quadrinhos da Bienal de São Paulo este ano.
O quadrinista mais experiente da turma exalta os seus companheiros de ofício locais e nacionais. “Temos uma cena de pessoas muito interessadas e interessantes”, afirma Hugo, ressaltando que o quadrinho brasileiro é muito respeitado no mundo. Para ele, nos últimos anos o Nordeste vem ganhando cada vez mais projeção no cenário nacional.
Devoradora de gibis
Arte-finalista, a alagoinhense Katarina Amaralina também tem na infância a origem da sua relação com os quadrinhos. “A minha geração cresceu muito ligada à Turma da Mônica. Eu era o tipo de criança que devorava gibis. Eu podia passar a tarde toda lendo”, conta a jovem, que na adolescência se encantou com os mangás.
Em 2024, Katarina ingressou no Bacharelado Interdisciplinar em Artes da Ufba e começou a atuar com quadrinhos. “Eu sempre fui muito ligada à arte, porém mais à ilustração”, destaca a arte-finalista. “Quando eu conheci a Escola de Belas Artes comecei a me aprofundar mais na criação de quadrinhos”, declara a jovem.
Katarina conheceu o projeto de extensão universitária em quadrinhos do professor Roddolfo Carvalho e passou a se interessar cada vez mais pela área. “Eu era leitora e isso abriu a porta para mim, que eu podia ser uma pessoa que cria quadrinhos”, afirma a arte-finalista do grupo de extensão, que sonha publicar suas próprias histórias.
Atualmente, Katarina aguarda a produção da última edição da revista Brasilis 8/80 Conta Contos. “Eu serei a última pessoa a pegar na revista, meu trabalho é mais ligado à coloração. Eu trabalho com linha também”, explica.
Katarina qualifica o seu trabalho na extensão como “divertido” e “interessante” e afirma que essa experiência a está ajudando a desenvolver ainda mais o seu trabalho com linhas em preto e branco. A jovem defende o trabalho de arte-final como algo mais importante do que parece.
“A parte de arte-final vai juntar todo o pensamento do desenho com o que a gente quer mostrar ao público”, explica ela, que define essa etapa do desenho como uma conversa entre o leitor e a obra.
Histórias mundanas
Breno Scofield decidiu que queria fazer quadrinhos assim que entrou em contato com os mangás, na adolescência, aos 13 anos, cinco anos antes de ingressar na EBA. O quadrinista começou a desenhar imerso em temas ligados à fantasia, mas nos últimos tempos se voltou para assuntos cotidianos e histórias mundanas. “São bem opostos, mas de uns tempos para cá o cotidiano tem ocupado mais o meu imaginário”, diz Breno.
Um dos seus trabalhos favoritos é um mangá chamado Protocolo Paola, a história de uma garota que joga bola entre os rapazes com o sonho de se tornar uma grande jogadora de futebol.

Nesse momento, ele está trabalhando uma história chamada Memórias de Areia, em parceria com a quadrinista Bebs, sobre um término de relacionamento. “É o primeiro quadrinho em que eu abordo esse tema”, declara o quadrinista. Esse trabalho deve ser publicado em 2027.
Apesar do talento cada vez mais evidente dos quadrinistas baianos, a cena local de HQ ainda está baseada exclusivamente nas movimentações individuais dos artistas. “Nós não temos um estúdio que banque uma produção intensa. As produções são bancadas individualmente ou por alguns coletivos”, ressalta o designer Roddolfo Carvalho, professor da Escola de Belas Artes da Ufba e especialista em quadrinismo.
Roddolfo afirma que se alfabetizou lendo as revistas do Recruta Zero, da Turma da Mônica e O Gordo & Cia, e aos 10 anos já ia pessoalmente à banca comprar as suas próprias revistas de A Espada Selvagem de Conan. “Ali eu vi que um mundo se abriu para mim, porque era um trabalho com nanquim, os meios-tons, os tons de cinza, o grafite”, conta.
Na academia
No mês passado, a EBA realizou O Cupinário: Baianidade, evento que busca trazer os quadrinhos ao ambiente acadêmico e discutir a chamada nona arte pelo viés de mercado, pesquisa e produção independente, contando com quadrinistas e pesquisadores que representam a cena local de Salvador e da Bahia.
“No último Cupinário, uma coisa que justamente foi discutida é que talvez não haja, de fato, um mercado, mas uma cena”, afirma Roddolfo, destacando que no Brasil quem quiser sobreviver de quadrinhos tem basicamente como alternativa trabalhar nos estúdios da Maurício de Sousa Produções.
Mas Roddolfo pontua que essa limitação não indica que os quadrinistas não vão produzir: “Há como alternativas as plataformas digitais como a Webtoon, uma plataforma da Ásia que tem a adesão de milhões de pessoas”.
Essa plataforma reúne, além de trabalhos produzidos no Japão, na China e na Coreia do Sul, muitos quadrinhos brasileiros. E o Brasil possui a sua própria plataforma nacional, a Funktoon, que publica autores nacionais em diversas categorias: sci-fi, literatura, mangás, paradas sinistras, distopias latinas, tirinhas e LGBTQI+. “Essa plataforma tem também uma adesão absurda e se torna um mercado possível para o quadrinho digital”, diz o professor.
Além de régua e compasso, a Bahia tem dado lápis, nanquim e muita criatividade aos filhos da Boa Terra para que eles contem belas histórias através dos desenhos. Em tempos de exércitos populares: quadrinistas de todo o estado, uni-vos e dominai o mundo!