Outro dia eu estava distraído pelo ritmo lento do ferryboat, contemplando um mar azul-esverdeado, que se estendia imenso, calmo, misterioso e sedutor, quando avistei num canto do horizonte, nem tão perto, nem tão longe, algo que me chamou a atenção: uma pequena onda violenta, que se espatifava com orgulho e ferocidade contra as pedras. Navegando entre o Terminal de São Joaquim, em Salvador, e o Terminal de Bom Despacho, na Ilha de Itaparica, eu me perguntava o que fazer com essa imagem.
Eu permanecia sereno, ocupando solidamente um assento da grande embarcação que pesa centenas de toneladas. Minha atitude era semelhante à dos demais passageiros que, sentados ou em pé, faziam um uso ordinário da área externa e superior da embarcação. Os ventos sopravam fortes, mas balançavam pouco o aço naval. Assim, posso dizer que, apesar da assustadora pregação sobre o fim do mundo e a comercialização de uma infinidade de bugigangas eletrônicas para fins sociais e celestiais, a viagem ocorreu com certa tranquilidade.
Mas uma outra parte de mim ainda se inquietava, buscando encontrar caminhos para alguma compreensão sobre a imagem que me fisgou. Meus pensamentos tentavam se esquivar do falatório generalizado, dos sons que pulavam dos celulares das pessoas para também ocupar parte do ruído do ambiente. Ao lado de uma placa que regia as normas de conduta na embarcação, um homem rebelde tocava violão. Ele andava de lado, feito caranguejo, por entre os assentos e as pessoas enquanto cantava uma música que devia ser de sua autoria. Ao final da apresentação, pediu palmas de sua plateia compulsória. Advertiu, porém, que as palmas não eram para ele, mas para Jesus. Então as palmas vieram como débitos sendo quitados. Ele falou mais algumas coisas que não entendi, que o vento levou, e depois passou o chapéu como um típico artista de rua.
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Respirei fundo. Fechei os olhos. Apoiei o polegar da minha mão esquerda na bochecha e descansei o restante dos dedos na testa para concentrar os pensamentos. Eu queria decifrar a imagem, achar uma verdade oculta nela. Mas a imagem da onda violenta e agonizante foi se dissipando. O vento marítimo fazia sua parte. Eu já não estava sobre a Baía de Todos-os-Santos. Do mar, meus pensamentos aportaram numa terra onírica, onde uma antiga parábola era contada. Eu estava sentado e em silêncio como no ferryboat. E prestei atenção. O velho sábio explicava ao neto a batalha interna entre dois lobos que existiam dentro deles: um era o rancor, a raiva, a ganância, a mentira, a arrogância e o ressentimento; o outro era a empatia, a humildade, a alegria, a serenidade, a esperança e a generosidade. Depois de um tempo, quando o rapaz perguntou qual deles venceria, o avô apenas respondeu que seria aquele que escolhêssemos alimentar.
*Evanilton Gonçalves é autor de Ladeira da Preguiça (Todavia)