Quem sou eu depois do amor? Quando a escrita vira ruína e recomeço

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Quando tudo cala: a escrita como último gesto de existência –

Não sei mais sobre o que escrever, a falta de inspiração me pegou de jeito e não encontro maneira de sair dela, embora seja imperativo para os caminhos que escolhi trilhar na vida. Mas por que o texto não vem? Creio que alguns fatores são cruciais: primeiro, parei de escrever crônica há bastante tempo, há quase dois anos, e a escrita é um exercício como qualquer outro, quando a gente pára de praticar, a coisa enferruja; tem também o fator alienação que conta, pois dei um tempo de assistir, ler e ouvir sobre as notícias do Brasil e do mundo, porque está tudo muito difícil e se eu quiser permanecer em vida até o fim do ano (eleitoral) terei que me cuidar, não dá para ficar o tempo todo imersa na guerra, no desbaratino midiático e na misoginia assassina, para citar alguns dos mais novos velhos temas em relevância no momento; além disso, acho que estou num momento de declínio de sentimentos inspiradores, numa espécie de limbo emocional, que nem me permite continuar a usar minhas paixões passadas, nem me fornece novas fontes de combustível.

Como estratégia para sair da letargia, procuro a leitura, mas não de qualquer texto ou autor, tem que ser algo que me desperte, que me ajude a colocar em movimento, meio que peristáltico, minhas próprias angústias teóricas, políticas e emocionais, não no sentido de resolvê-las, mas de cutucá-las, apertá-las, afrouxá-las. Foi então que li a seguinte colocação, num texto de Badiou, que estou estudando para uma disciplina na Universidade: “Toda a minha capacidade de interesse, toda a minha perseverança no ser é derramada em um problema científico, no exame do mundo à luz do ser-dois do amor, no que farei de meu encontro, um dia, com o eterno Hamlet, ou na etapa seguinte do processo político, quando o grupo diante da fábrica estiver dispersado”. E me pergunto onde estará meu interesse, depois que a paixão se consumiu sem consumação, quando já não há remetente à vista, quando esse ser-dois do amor se transformou tão radicalmente num ser um – solitário e triste –, em todas as áreas que me são caras?

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Em outras palavras, quem sou eu depois do amor?

Que ponto de vista posso chamar de meu e como escrever qualquer coisa de minimamente interessante sem ele? Outros autores, e talvez o próprio Badiou, me diriam que um ponto de vista e mesmo o sujeito que escreve, ou o autor, se preferimos, não se constitui antes do texto, mas com ele, através dele, por consequência dele e imagino que é isso que estou tentando aqui, me encontrar em meio a minha própria prosódia, reconectar meus próprios mecanismos e restabelecer minhas conexões com o ser amado, com o mundo e comigo mesma, depois da decepção, da tristeza e do vazio que deixam as experiências apaixonadas: nunca mais a música romântica, nunca mais o riso bobo e a beleza espontânea, nunca mais a perda da fala diante da presença e a verborragia na ausência, nunca mais a escrita amorosa e os orgasmos endereçados – nunca mais feliz? Ao mesmo tempo, um autor uruguaio me faz pensar que os amores são uma fonte de luminosidade, de entendimento de nossa existência, e talvez este texto também seja uma tentativa de alcançar um lampejo, uma faísca luminosa em meio à desilusão – meus novos sentidos.

Sei que virão, eles têm que vir, mas fico pensando quando, onde e se será a tempo de realizar os projetos em que me enfiei. De qualquer sorte, acho que nem tudo está perdido, pois o texto foi escrito e está aqui para ser lido e, mesmo que não seja lá muito palatável, talvez haja algo aqui que possa ser devidamente digerido.



Fonte: A Tarde

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