Vinicius Jr. –
O novo caso de racismo contra Vinicius Jr. reativou velhos mecanismos para amenizar a celeuma, originada na mercantilização dos escravizados de África. Desta vez, o incidente traz a coincidência emblemática de ter ocorrido em Lisboa, metrópole cuja prosperidade se deve ao sequestro de pessoas pretas.
Chamar o craque de mono – macaco – aciona o método ancestral relativo ao tratamento dos africanos como seres inferiores e sem alma, objetos à venda. Sofre, mas grita, o atacante do Madri, autor do belo gol na vitória sobre o Benfica: sua resistência irrita quem tenta relaxar o absurdo, culpando o jogador.
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Tão consistente permanece a doença social a ponto de se questionar por que Vini Jr. se abala com os insultos, como se fosse justo atribuir o crime à vítima. O algoz de agora é o argentino Prestianni, a quem coube a esperteza de livrar o flagrante, ao retorcer a camisa à frente da boca a fim de evitar a leitura labial.
Futebolistas reunidos no Portal da Voz dos Jogadores da Fifa concentraram esforços contra a tática do acusado, visando proibir mais disfarces deploráveis. O problema, no entanto, não é apenas impedir o ridículo drible, mas tentar articular instituições esportivas e governos para combater a doença.
Sem organização eficiente, o racismo é imparável, como definiu o articulista de A TARDE, Angelo Paz, direto de Lisboa, onde faz doutorado em jornalismo. A questão põe os holofotes em Vini Jr. por sua condição de craque mundialmente famoso, mas sua dor é a de milhões de retintos, há 400 anos.
A luta contra a discriminação estabelece o tempo presente como ponte ligando o passado de fausto dos mercadores negreiros ao futuro do mundo. Neste momento de estresse racial, devido ao recrudescimento de restrições às migrações, tomar por normal o gesto de Prestianni incentiva a reincidência.
O futebol tem a força de formador de caráter: é preciso planejar meios de combater a impunidade, senão para eliminar, ao menos reduzir ocorrências. A bola existe para o Bem, racismo é gol contra.