As comemorações do resultado da eleição para prefeito na pequena cidade de Irajuba, no Centro-Sul da Bahia, ocorreram de uma forma fora do habitual na disputa municipal de 2000. O fato inusitado é que a celebração não contou com o candidato vencedor do pleito, pois, na realidade, ele passou todo o período oficial de campanha preso por acusação de envolvimento em casos de roubos e desvios de cargas.
Humberto Solon Sarmento Franco, conhecido como Betão, foi eleito prefeito de Irajuba com 54,07% dos votos nas eleições de 2000. No entanto, sua vitória foi construída sem participação presencial na campanha em razão da prisão ocorrida em 14 de julho daquele ano, mantendo-o custodiado no Conjunto Penal de Jequié.
Diante do favoritismo do deputado estadual Binho Galinha (Avante) para a sua reeleição, mesmo preso desde outubro do ano passado, o A TARDE Destaque relembra o primeiro e único caso registrado até o momento de um político que logrou êxito eleitoral na Bahia enquanto esteve detido no sistema penitenciário durante o período de campanha.
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Quem é Betão?
Antes de se contar a história, é preciso entender o protagonista. Betão nasceu em 1º de abril de 1945, em Santa Inês, mas encontrou suas raízes em Irajuba. Humberto Solon Sarmento Franco é filho de Abílio de Sena Franco, fundador e um dos líderes da emancipação do município, ocorrida em 1962.
Seu pai e sua mãe foram prefeitos de Irajuba após a fundação da cidade, dando início à trajetória política da família Franco. Antes de se eleger em 2000 pelo PPB, Betão desempenhava atividades empresariais: comandava uma rede de postos de gasolina e colaborava na administração de negócios familiares, como o antigo Supermercados Franco, pertencente ao seu filho, Humberto Solon Sarmento Franco Júnior.

Após o êxito inusitado em 2000, Betão conseguiu se reeleger em 2004 — já filiado ao PFL —, mas acumulou derrotas nas urnas ao tentar retomar o comando da prefeitura em 2012 e 2016. Conforme apurado pela reportagem com pessoas próximas ao ex-prefeito, hoje, aos 81 anos, ele ainda mantém atuação política e diálogos com lideranças, a exemplo do deputado federal Cláudio Cajado (PP) e do deputado estadual Euclides Fernandes (PT).
Prisão e os roubos de cargas
“Candidato a prefeito é preso por vários crimes”. Essa foi a manchete do jornal A TARDE em 15 de julho de 2000, que registrou a prisão de Betão após mandado da Justiça de Patrocínio, município localizado no Triângulo Mineiro, por suposto envolvimento em estelionato, estupro, crime eleitoral e de “sedução”, além de investigações por receptação de cargas furtadas.
Betão era acusado de integrar uma quadrilha com ramificações em diversos estados que realizava assaltos a rodovias. A acusação formalizou-se após meses de investigação policial, que também apreendeu mercadorias roubadas em diferentes regiões baianas. O filho de Betão, Humberto Júnior, também foi alvo da apuração e acabou detido.

A prisão ocorreu em meio a uma crise gerada pelo aumento abrupto de roubos de cargas no país. Segundo a mestre em Engenharia de Transportes pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Maisa Sandra de Sá Bezerra, a prática criminosa ganhou novas proporções na década de 1990, crescendo ano após ano e tornando-se mais sofisticada com a inserção do crime organizado.
A repercussão foi tamanha que o então deputado federal Oscar Andrade (PFL-RO) abriu uma Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Roubo de Cargas. As investigações ocorreram entre 2000 e 2003, período em que Andrade chegou a solicitar a convocação de Betão e a quebra de sigilos bancário, fiscal e telefônico das empresas ligadas a ele.
Campanha do presídio
Após ser preso em julho de 2000, o candidato ficou custodiado no Complexo Policial de Jequié durante toda a campanha eleitoral. No entanto, a reclusão não impediu a realização de comícios em seu nome no centro e na zona rural da cidade.
Os eventos com apoiadores eram tocados por outros familiares, como sua esposa, a ex-prefeita Maria Aparecida, e correligionários da coligação PPB/PTB, seguindo o cronograma previamente aprovado pelos partidos. Na época, organizadores chegaram a se queixar da ausência do candidato nos atos e manifestaram preocupação com o impacto eleitoral.
Todavia, durante sua atuação como empresário, Betão consolidou uma imagem caridosa em Irajuba, o que abafou a repercussão de sua suposta participação na organização criminosa. Antes da prisão, ele promovia ações sociais, como um projeto de construção de casas populares para doação a famílias carentes.
Além disso, reformou mais de 80 imóveis e distribuiu centenas de cestas básicas nas comunidades. Com a paralisação das obras habitacionais, a prisão de Betão passou a ser vista por muitos irajubenses como uma “injustiça”, o que acabou impulsionando sua candidatura.
O pleito ocorreu em 1º de outubro de 2000, consagrando a vitória de Betão com 54,07% dos votos válidos. Seu principal adversário, Antonio Oliveira Sampaio (então no PFL), obteve 45,93%.
Betão é um homem de Deus Wilson Fontana – Wilson Fontana, morador de Irajuba entrevistado pelo jornal A TARDE em 2000

Liberdade e festa
No dia 21 de outubro de 2000, após 20 dias do resultado das eleições, Betão recebeu um habeas corpus e foi libertado após decisão do Tribunal de Justiça da Bahia (TJBA), passando a responder pelo processo em liberdade.
Conforme as páginas do A TARDE na época, o retorno do político a Irajuba foi marcado por celebração popular.
“O reencontro com a comunidade foi apoteótico, com a população saindo às ruas para recepcioná-lo. […] Humberto Solon protagonizou um dos capítulos de maior repercussão da política baiana, conseguindo ser eleito prefeito mesmo sendo acusado de vários delitos graves”, descrevia a matéria.

Legislação
Pela legislação eleitoral, os partidos podem solicitar o registro de qualquer filiado, mas a validação cabe à Justiça Eleitoral após verificação da ficha criminal.
O condenado por sentença criminal com trânsito em julgado, quando não cabem mais recursos, fica inelegível por ter os direitos políticos suspensos. No caso de Betão, contudo, a prisão teve caráter estritamente preventivo e, conforme os registros apurados pela presente reportagem, não houve condenação penal definitiva naqueles autos.
A reportagem chegou a conversar brevemente com o filho do ex-prefeito, Humberto Júnior, conhecido como Beto de Irajuba, para colher mais detalhes da campanha em Irajuba. O A TARDE também buscou entrevistar Betão diretamente, mas não foi respondido.