Salvador usa estratégia de guerra e IA para gerir maior festa do mundo

3

É natural pensar em Salvador e imediatamente associar a capital baiana à ancestralidade devido à bagagem rica e ligação direta com a África em suas manifestações culturais e religiosas. Mas a inovação e o olhar para um futuro cada vez mais tecnológico também são características fortes da primeira capital do Brasil, que completa 477 anos neste domingo, 29, e tem o Carnaval como um dos maiores laboratórios de Smart City do mundo.

Na reportagem anterior da série especial “Salvador 4.7.7 — A Capital do Futuro”, mergulhamos nos laboratórios de biotecnologia e nos centros de robótica que estão redesenhando a medicina mundial a partir da Bahia. Vimos como a precisão cirúrgica de “erro zero” e as pesquisas pioneiras contra o HIV e o HTLV provam que o gênio soteropolitano pode exportar ciência e cura para o globo. Hoje, o foco é o Carnaval e a Indústria de Games.

Tudo sobre Aniversário de Salvador em primeira mão!

A folia se destaca como a maior operação urbana e cultural do mundo e exige uma verdadeira “estratégia de guerra tecnológica” para funcionar com eficiência, segurança e escala. Ou seja, a tecnologia deixou de ser suporte e passou a ser eixo central da gestão.

“Nós operamos com um masterplan totalmente digital e georreferenciado, que organiza toda a festa antes mesmo dela acontecer. São mais de 4 mil estruturas mapeadas, com planejamento detalhado de localização, fluxo, mobilidade e serviços”, destacou o presidente da Saltur (Empresa Salvador Turismo), Isaac Edington, ao portal A TARDE.

Durante o evento, a operação entra em uma fase de monitoramento em tempo real, 24 horas por dia, com uso intensivo de tecnologia:

  • Inteligência artificial para análise de fluxo de pessoas, identificação de pontos de pressão e prevenção de tumultos
  • Sistemas de contagem de público em tempo real, apoiando decisões imediatas
  • Rastreamento via GPS de todos os trios elétricos, garantindo controle operacional e previsibilidade
  • Centros integrados de comando e controle, conectando segurança, mobilidade, saúde e serviços urbanos

Na mobilidade urbana, a tecnologia também tem um papel importante:

  • Controle inteligente de tráfego, com monitoramento em tempo real das vias
  • Portais de acesso monitorados, que fazem o controle rigoroso da entrada de veículos nas áreas restritas
  • Integração de dados de trânsito, transporte e operação, permitindo ajustes dinâmicos durante a festa

Painel de controle integrado

Outro ponto-chave importante é o uso de um painel de controle integrado, onde todos os órgãos e secretarias alimentam informações em tempo real. Essa estrutura consolida dados operacionais, indicadores críticos e ocorrências, permitindo uma gestão coordenada e decisões rápidas.

É com base nesse ambiente que fazemos o acompanhamento diário da operação, inclusive nas reuniões estratégicas.

Isaac Edington – presidente da Empresa Salvador Turismo (Saltur)

Além disso, existe o sistema Badauê, que é fundamental para o controle do fluxo das atrações. Ele permite o monitoramento em tempo real das exibições e da evolução de cada desfile nos principais circuitos garantindo previsibilidade, organização e fluidez na dinâmica dos trios e entidades.

A tecnologia também está presente na sustentabilidade, com ações estruturadas para neutralização de carbono, reforçando o compromisso com a ESG – Environmental, Social and Governance (Ambiental, Social e Governança).

O que a gente construiu foi uma lógica de gestão onde dados viram decisão em tempo real. Se tem um lugar no Brasil onde a tecnologia está sendo levada ao limite em eventos de massa, hoje, esse lugar é o Carnaval de Salvador.

Isaac Edington – presidente da Empresa Salvador Turismo (Saltur)

Isaac Edington, presidente da Saltur (Empresa Salvador Turismo) | Foto: Divulgação

Leia Também:

‘Mapa inteligente’ da festa

Para quem olha de fora, a montagem das estruturas da festa parece brotar do chão da noite para o dia, mas o que poucas pessoas sabem é que existe uma ferramenta chamada Masterplan do Carnaval de Salvador, que organiza toda a ocupação do espaço urbano antes mesmo da montagem começar.

A ferramenta funciona como um grande ‘mapa inteligente’ da festa, onde são posicionadas, com precisão, todas as estruturas — camarotes, arquibancadas, postos de saúde, torres de serviços, acessos, rotas de emergência e fluxos de circulação.

Tudo é previamente validado, reduzindo conflitos e otimizando o uso do território.

Isaac Edington – presidente da Empresa Salvador Turismo (Saltur)

Apresentação do Masterplan do Carnaval de Salvador

Apresentação do Masterplan do Carnaval de Salvador | Foto: Divulgação | Saltur

Laboratório de Smart City

Em 2024, o Connected Smart Cities, fórum das cidades mais inteligentes e conectadas do Brasil, colocou Salvador como a cidade mais desenvolvida nessas áreas no Nordeste. Para Isaac Edington, nesse cenário, o Carnaval serve de laboratório para testar tecnologias

“O Carnaval de Salvador funciona, na prática, como um grande laboratório urbano de inovação. É durante a festa que a cidade testa, em escala máxima, soluções de tecnologia, gestão e integração que depois podem ser aplicadas no dia a dia”, destacou.

O que os olhos não veem, mas faz a festa acontecer

Além daquilo que fica visível na festa e são cuidados importantes, tem tudo aquilo que os olhos não veem, mas faz a folia acontecer. Uma delas é a fibra óptica, que sustenta os circuitos e dá suporte a todos os órgãos da prefeitura. Além de permitir que as câmeras passassem a ser monitoradas remotamente.

“É possível ter a imagem de todas essas câmeras em um ponto só, aí é possível fazer a gestão do espetáculo”, explicou Cláudio Maltez, subsecretário de Inovação e Tecnologia de Salvador.

A fibra permitiu também que a gente fizesse uma conexão de alta velocidade e de qualidade para todos os postos, de onde é possível ter acesso a internet para acompanhar sistemas e toda a parte de sensoriamento.

Cláudio Maltez – subsecretário de Inovação e Tecnologia de Salvador

Também é papel da Semit (Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia) a operação que envolve ruídos, pois é necessário que se respeite o regramento máximo de decibéis para que a música não vire poluição sonora. Para evitar isso existe uma série de outros sensores acoplados na fibra.

A fibra funciona para o Carnaval e para Salvador como o sistema nervoso periférico funciona com o corpo humano. Ela que consegue dar essa capilaridade para que a gente possa ver não só o que acontece no circuito, mas também no entorno.

Cláudio Maltez – subsecretário de Inovação e Tecnologia de Salvador

A fibra é um cabo com pontos de abertura que permite atender vários pontos. Ela é estrategicamente instalada ao longo dos principais circuitos da folia, principalmente no Circuito Dodô (Barra-Ondina) e no Circuito Osmar (Campo Grande).

Plano B

Segundo Maltez, existe uma resiliência grande da rede, porque a fibra foi pensada de modo que se romper de um lado, tem a comunicação do outro.

“Existe a possibilidade, por exemplo, de dois lugares serem rompidos. É por isso que a gente coloca também a fibra de um terceiro, de um pequeno provedor, que já consiga atender aquela região com qualidade”, detalhou.

30 mil GB de dados 30 km de fibras

Segundo dados da Semit, apenas do Carnaval de 2026, foram mais de 30 mil GB de dados diversos (voz, vídeo e dados) trafegados por 12 milhões de conexões à rede, feita por quase 26 mil pessoas distintas.

Para chegar nesse resultado, foram necessários cerca de 30 km de fibras ópticas espalhados nos principais circuitos do Carnaval. Salvador como um todo conta com 930 km.

Dados da Semit

Dados da Semit | Foto: Divulgação

Segurança e tecnologia: casamento que tem gerado bons frutos

A segurança do Carnaval de Salvador e na capital de maneira geral também está ficando cada vez mais tecnológica com o uso de câmeras de reconhecimento facial, que são posicionadas em locais estratégicos e previamente estudados para coletar e fazer a leitura das faces de pessoas que estejam com algum débito com a justiça.

A reportagem também ouviu o superintendente de Telecomunicações da Secretária de Segurança Pública da Bahia (SSP-BA), Coronel André Borges. Ele revelou que existe na Bahia um banco de dados com informações sobre pessoas que estão com mandados em aberto. Esses detalhes são coletadas no Banco Nacional de Mandados de Prisão.

“Buscamos imagens mais atualizadas para que realmente ela possa se aproximar da realidade. Quando a câmera coleta alguém que está com o mandado de prisão em aberto, é gerado um alerta aqui nos nossos Centros Integrados de Comunicação, os CICOMS”, contou.

Câmera de reconhecimento facial no Carnaval de Salvador

Câmera de reconhecimento facial no Carnaval de Salvador | Foto: Rafael Rodrigues | SSP-BA

Depois disso, uma equipe, que fica acompanhando os alertas 24 horas por dia, faz a checagem. Ao confirmar que realmente é o foragido, uma equipe mais próxima é alertada para se deslocar e abordar aquele alvo.

“Com orientação de, ao chegar, fazer uma nova conferência. Se for verificado a semelhança, em seguida ela tem que ser confirmada através de documentação. Vai ser feito um confronto de dados para que, só depois, essa pessoa seja conduzida até a delegacia”, detalhou.

O tempo de resposta varia em torno de dois a cinco minutos. Algumas vezes é possível que em até 30 segundos se consiga pegar um alvo. Quando se trata de reconhecimento facial, os alertas são priorizados.

André Borges ressaltou que as câmeras usadas são modernas, potentes e possuem a tecnologia analítica de reconhecimento facial. Essa tecnologia utiliza a inteligência artificial para fazer essa leitura da face do ser humano. “Ela faz a captação e faz o cruzamento com aquilo que está constando no nosso banco de dados com uma verossimilhança de 90%. E o alerta só acontece quando é acima desses 90%”, acrescentou.

Outras inovações

Centro Integrado de Comando e Controle (CICC)

Centro Integrado de Comando e Controle (CICC) | Foto: Rafael Rodrigues | SSP-BA

Além dos CICOMS, a SSP-BA ativou o Centro Integrado de Comando e Controle (CICC). É uma sala que conta com câmeras enormes e concentra vários órgãos que são interligados com o desenvolvimento do Carnaval. O CICC é específico para os grandes eventos ou para ações específicas.

A tecnologia é uma parceira da segurança pública e nós a utilizamos em favor da manutenção da ordem.

Coronel André Borges – superintendente de Telecomunicações da Secretária de Segurança Pública da Bahia (SSP-BA)

Plataformas de observação elevada

A operação passou a contar também com câmeras móveis que ficam em uma espécie de caminhão, e funcionam como plataformas de observação elevada. A SSP-BA também está adquirindo plataformas mais compactas — são 14 Ford Transit —, que já atuaram no Carnaval em regime de teste.

“São veículos mais compactos, que vão dar mais mobilidade para esse deslocamento. Esse veículo comporta 16 câmeras, inclusive de reconhecimento facial e leitura de placas de veículos. Tem câmeras que possuem um mastro com o qual é possível elevar a até 15 metros e conseguem fazer leitura em 360 graus a aproximadamente 500 metros de distância”, explicitou.

Nós já temos quatro caminhões maiores, que são mais estruturados, para poder fazer o deslocamento para todo o interior do estado e também aqui na capital. A tecnologia, ela é um reforço. Nós precisamos do efetivo humano porque ele vai ser usado para fazer a captura do alvo.

Coronel André Borges – superintendente de Telecomunicações da Secretária de Segurança Pública da Bahia (SSP-BA)

Secretária de Segurança Pública da Bahia (SSP-BA)

Secretária de Segurança Pública da Bahia (SSP-BA) | Foto: Rafael Rodrigues | SSP-BA

O Coronel André Borges enfatizou que as plataformas de observação elevada compactas são uma inovação. “Um projeto que foi desenvolvido aqui pela Bahia. É uma novidade que nós já pretendemos entregar para o período das festas juninas. Esses veículos serão empregados para atender e reforçar a segurança nesses eventos”, contou ao A TARDE.

Estamos buscando realmente aprimorar e aperfeiçoar o emprego da tecnologia, utilizando a inteligência artificial para nos auxiliar em todo esse processo.

Coronel André Borges – superintendente de Telecomunicações da Secretária de Segurança Pública da Bahia (SSP-BA)

Do Carnaval à criação de universos digitais

Outro ponto interessante sobre o destaque de Salvador no cenário das cidades inteligentes é o crescimento de desenvolvedores de jogos em Salvador que usam mitologia e a história da Bahia para enriquecer as histórias. Iniciativas assim mostram que a cidade está deixando de ser apenas cenário para virar criadora de universos digitais.

De acordo com Lobba Mattos, atual presidenta da Associação de Desenvolvedores de Jogos do Estado da Bahia, a BIND, “talvez seja cedo para falar em polo, mas certamente, Salvador se destaca como um dos municípios no Nordeste com significativa concentração de desenvolvedores de jogos e empresas ativas, com alto potencial de crescimento”.

Processo de desenvolvimento de um jogo

Processo de desenvolvimento de um jogo | Foto: Divulgação | BIND

Para uma Smart City, a cultura é um dado valioso. Lobba afirmou que jogos digitais, quando planejados para este fim, podem viabilizar estratégias de governança participativa e educação ambiental e urbanística.

Aprofundando não só a capilaridade de iniciativas que incentivam a produção democrática da cidade, mas também as políticas orientadas para o soft power, que podem fortalecer a construção da imagem de uma cidade atrativa tanto para residentes quanto para visitantes.

Lobba Mattos – presidenta da Associação de Desenvolvedores de Jogos do Estado da Bahia (BIND)

A presidente da BIND salientou ainda que a expansão da rede de infraestrutura de telecomunicações é um primeiro passo importante para a construção de uma cidade inteligente, mas não pode ser um fim em si mesmo. “Mecanismos de ampliação de acesso e infraestruturas digitais comuns, como hubs, coworkings e afins, são importantes para potencializar o uso dessas ferramentas”, finalizou.

Ao unir os circuitos à mitologia baiana transformada em códigos de pixels, Salvador prova que sua maior tecnologia é a capacidade de inovar sem esquecer a própria essência. Nos seus 477 anos, a primeira capital do Brasil mostra que a tradição e o futuro não são opostos, e sim as duas faces de uma cidade que usa dados para potencializar uma grande riqueza: a criatividade.

Mas, se em 2026 já operamos com inteligência artificial nos circuitos e exportamos universos digitais, como estará a “Roma Negra” daqui a duas décadas?

Neste domingo, 29, aniversário de Salvador, o portal A TARDE publica o grande final da série especial Salvador 4.7.7 — A Capital do Futuro. Vamos dar um salto no tempo para o ano de 2049. Como a tecnologia terá transformado nossa face urbana? Saiba como Salvador chegará aos seus 500 anos.



Fonte: A Tarde

Artigos relacionados

Últimas notícias

3 séries novas de mistério da Netflix para ver neste fim de semana

Essas séries novas da Netflix são ideais para quem busca boas produções...

Últimas notícias

Confira convocação de assembleia para Fator Ícone Empreendimentos Imobiliários S/A

FATOR ÍCONE EMPREENDIMENTOS IMOBILIÁRIOS S/A CNPJ/MF 07.176.268/0001-28 Tudo sobre Imobiliário em primeira...

Últimas notícias

Confira convocação de assembleia para Trobogy Empreendimentos Imobiliários S.A.

TROBOGY EMPREENDIMENTOS IMOBILIARIOS S.A. CNPJ 09.378.619/0001-09 Tudo sobre Imobiliário em primeira mão!...

Últimas notícias

Confira convocação de assembleia para Newpb Investimentos S.A.

NEWPB INVESTIMENTOS S.A. CNPJ 14.042.813/0001-59 Tudo sobre Imobiliário em primeira mão! NIRE...