Sambistas celebram homenagem ao gênero musical no Carnaval de Salvador

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Sentada à frente de casa, na Ladeira do Carmo, Centro Histórico, a sambista Gal do Beco observa a mudança na paisagem local, com a preparação da infraestrutura do Carnaval. A poucos metros de sua residência, ergue-se uma armação de madeira, o praticável que servirá de apoio à Polícia Militar durante a folia. “O Carnaval está maravilhoso”, afirma a cantora, que na última terça-feira participou do show de Rogério Sacerdote, no Largo Pedro Arcanjo, e que na próxima quinta vai integrar a programação de abertura da festa, que este ano tem como tema O Samba nasceu aqui. Gal ainda se apresenta duas vezes no dia 14, sábado de Carnaval. Primeiro no Largo Quincas Berro d’Água e depois na Cruz Caída.

Ao falar sobre o que o samba significa para si, Gal ergue o braço direito, com seis contas de orixás, e o toca com o dedo indicador esquerdo para sinalizar que ficou arrepiada. “O samba entrou em mim e com ele eu criei meus filhos. O samba é minha vida, meu tudo”, afirma a cantora.

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A niteroiense Gal, que trabalhava como empregada doméstica no Rio de Janeiro, aportou na Bahia em 1979, acompanhada do marido, o artista plástico Roberto Osvaldo, o Briote, pai de seus dois filhos, Davi e Luana.

O casamento acabou e com o tempo Gal passou a frequentar rodas de samba em Salvador com os filhos e a cantar, sem compromisso. Em 1989, montou a sua própria roda de samba em casa, no Engenho Velho da Federação, em um lugar que passaria a ser conhecido como o Beco de Gal, referência para o samba soteropolitano por 17 anos, até que em 2006 encerrou as atividades. “Ali era sala de aula, o samba tradicional mesmo. Terminou porque houve perseguição, muito ambulante na porta, mas deixou um legado maravilhoso”, afirma a sambista.

Mas a mulher que criou a fama do Beco de Gal já tinha virado o jogo e se tornado Gal do Beco. Fã de Alcione, Arlindo Cruz, João Nogueira, Dona Ivone Lara e Jovelina Pérola Negra, Gal do Beco considera que o grande nome do samba na Bahia é Nelson Rufino. “Meu irmão, uma pessoa por quem tenho um grande carinho”, afirma a cantora.

Pelo telefone

A homenagem ao samba no Carnaval 2026 é uma referência aos 110 anos da gravação de Pelo telefone, música de Donga e Mauro de Almeida. Foi o primeiro registro fonográfico de um samba. E a música teria sido composta na casa da baiana Tia Ciata. Mais um elemento de conexão entre os dois estados que reivindicam a criação do ritmo, símbolo do Brasil

Baiano do Tororó, o sambista Paulinho do Reco também traz um tanto de legado carioca em sua alma, fruto do período em que viveu no Rio de Janeiro. Em 1975, Paulinho integrou o conjunto Independentes do Samba, que acompanhou Nelson Rufino e Valmir Lima na gravação da coletânea Bahia de Todos os Sambas.

No seu corpo pulsa mesmo o samba das ruas de Salvador, desde as antigas escolas de samba até o mítico bloco indígena Apaxes do Tororó. Um dos autores de Negrume da noite, grande sucesso do Ilê Aiyê após a gravação de Margareth Menezes, Paulinho ainda está na expectativa de receber convites para tocar na folia.

Mas Paulinho está fora da programação oficial do Carnaval. Ele se submeteu ao edital da Secretaria Estadual de Cultura para a Programação do Pelourinho, mas não teve o projeto aprovado. “Essas coisas não vão mudar nunca. Eu me inscrevi com um colega, mas não deu certo, a gente não passou”, lamenta o sambista.

Servidor público aposentado, Paulinho se dedica ao samba ao longo de todo o ano, apresentando-se em bares e eventos com músicos amigos, como o Grupo Botequim e o Samba de Última Hora.

Sobre a música carnavalesca, Paulinho afirma que o sucesso é uma questão de momento. “Às vezes, você faz uma marcha em ritmo de samba e o pessoal gosta”, explica o sambista.

Paulinho acredita que o povo, atrás do trio, quer ouvir música boa e, por isso, ele gosta de puxar em meio à folia canções à margem dos sucessos da temporada, como Coração leviano, de Paulinho da Viola, ou Rose, de Ederaldo Gentil. “Música é música, só não pode cantar aquelas coisas de boquinha na garrafa”, afirma o sambista.

Ícone do samba baiano, Edil Pacheco exalta a homenagem ao gênero e afirma que gostaria de ver mais sambistas tradicionais participando da folia. “Sempre cabe mais um”, declara o veterano, para quem a exaltação aos grandes sambistas consolidados não significa o fechamento de portas às novas gerações.

“O samba dessa turma nova que está chegando merece já ser contemplado”, afirma Edil, que se apresenta no domingo de Carnaval na Praça da Cruz Caída, dentro da programação da Prefeitura de Salvador, e vai fazer outro show no Centro Histórico, ainda sem local definido, com o patrocínio da Bahiagás.

Entre as músicas icônicas do Carnaval baiano, Edil cita Samba, canto livre de um povo, parceria sua com Ederaldo Gentil. E, em sua opinião, existe uma canção sua que casa muito bem com a energia dos foliões que se vestem de palhaços. É Estamos aí, composta em 1972 e sucesso na voz de Gal Costa. “É uma música que não deixa de ter um conteúdo social embutido”, afirma Edil.

Festejos populares

Desde a gravação, há mais de um século, de uma versão instrumental de Pelo telefone pela Banda da Polícia da Bahia, fundada em 1849, o samba nunca esteve ausente dos festejos populares do estado. Não à toa, na década de 1970, Walmir Lima escreveu Ilha de Maré, sucesso na voz de Alcione, em que ele diz que veio da ilha pra fazer samba na Lavagem do Bonfim.

Antes disso, em 1940 o Bando da Lua gravou O samba da minha terra, do baianíssimo Dorival Caymmi, que eternizou a noção de que “quem não gosta de samba, bom sujeito não é, é ruim da cabeça ou doente do pé”. E na década de 1960, Vinícius de Moraes e Baden Powell, com o Samba da bênção, assumiram que o samba nasceu na Bahia.

A Bahia é a terra do samba triste e crítico de Batatinha, um gráfico que varava a madrugada imprimindo jornais e que, em 1942, um ano antes que Getúlio Vargas criasse a Consolidação das Leis do Trabalho, compôs O inventor do trabalho. Quatro décadas depois, a música seria descoberta pelo cineasta italiano e comunista Gianni Amico, que levaria Batatinha e outros nomes da MPB para o festival Bahia de Todos os Sambas.

A malandragem ingênua de Riachão, inspirada na estética dos malandros cariocas fez brotar da alma do sambista pérolas como Baleia da Sé, criada na década de 1950, quando Riachão viu uma baleia embalsamada em exposição no centro da cidade. E a debochada Vá morar com o diabo, sucesso nacional na voz de Cássia Eller.

O samba das escolas de samba baianas inspirou a carreira do mestre Guiga de Ogum, na Ladeira da Preguiça e de artistas populares no Garcia e no Tororó. Até hoje há remanescentes desse período, como a Escola Unidos de Itapuã, que na última quinta-feira participou da Lavagem de Itapuã.

Mesmo compositores de outros estados botaram a Bahia na roda, como o mineiro Ary Barroso, que descreveu em Na Baixa do Sapateiro os encantos da morena mais frajola da Bahia. Ou o carioca Chico Buarque, autor do Samba do Grande Amor, em que o protagonista reserva hotel e sarapatel em Salvador.

Os pioneiros abriram alas e as novas gerações de sambistas seguem ocupando a avenida. Um dos nomes mais proeminentes do samba soteropolitano na atualidade é Ju Moraes, revelada pelo The Voice Brasil em 2012 e que se tornou atração obrigatória nas festas populares.

Há seis anos, Ju Moraes é a vocalista do grupo Sambaiana, formado por mulheres LGBTQIA+. “A gente passeia por diversas formas, mas no nosso repertório incluímos os clássicos. Mas nosso grupo é autoral, os nossos sambas não podem faltar”, afirma Ju, que cita como um exemplo de samba de roda que a banda sempre toca Quixabeira, de Afonso Dodsworth Machado, Carlinhos Brown, Bernard Von Der Weid e Manoel dos Santos Silva.

A agenda da Sambaiana no Carnaval começa com uma pipoca no Campo Grande, à meia-noite de quinta para sexta no Campo Grande. No domingo haverá apresentação em um bairro ainda não confirmado, e prossegue na segunda-feira no Camarote Brown, às 20h; na terça-feira no Palco do Samba, no Pelourinho, às 19h, e no Camarote Viva, na Barra, às 21h30.

Mas a reação à programação do Carnaval 2026 não é um samba de uma nota só. Pesquisador musical e um dos fundadores do coletivo É Samba da Bahia, Felipe Ataíde, o Felipe do Cavaco, considera que a participação dos mestres sambistas e de grupos mais novos que atuam na cidade é muito pequena em uma festa que homenageia o samba. “Você tem o Samba de Lua, o Botequim, o Samba de Última Hora, uma galera que não está”, pontua Felipe.

Baiano

Visto até hoje por alguns como carioca, o baianíssimo sambista Nelson Rufino prefere mesmo ser citado como baiano e não como soteropolitano. Aliás, em uma brincadeira que mantém com o músico Roberto Mendes, diz que o seu maior defeito foi não ter nascido em Santo Amaro.

Brincadeiras à parte, Rufino declara-se muito feliz com a homenagem feita ao samba neste Carnaval e com o movimento de pessoas mais jovens que aderiram ao ritmo e frequentam as rodas de samba em Salvador.

“Para o menino que começou na batucada, depois veio o Mercadores de Bagdá e depois vieram as escolas de samba, o Apaxes, o Alerta Geral, o Amor e Paixão, eu estou muito feliz não só pela lembrança, mas por aos meus 83 anos ver a reverência que começou a rolar em Salvador”, afirma Rufino, que cita um monte de garotos e de grupos cantando samba. “Quando eu quero brincar, eu digo assim: finalmente, já estou vendo a branca e o branco sambando em Salvador”, declara o músico, emendando uma risada.

Metalúrgico de profissão e com família formada desde cedo, Rufino afirma que nunca sonhou em fazer carreira no Rio de Janeiro. “Agora, no resto dessa minha vida, as pessoas começaram a gostar dessa minha voz rouca”, brinca o autor de Verdade e Todo menino é um rei, sucessos nas vozes de Zeca Pagodinho e Roberto Ribeiro, respectivamente, que na sexta-feira embarcou para um show em Vitória, no Espírito Santo.

“É muito gratificante”, afirma o sambista, que em outubro do ano passado foi homenageado com uma estátua em tamanho natural e um palco fixo em seu nome, na orla de Pituaçu.

Rufino costuma dizer que cariocas e baianos formam o maior sanduíche misto do Brasil. “São dois povos que têm uma semelhança muito grande, embora o Rio de Janeiro jamais vá fazer samba de roda e a Bahia, partido alto”, compara o sambista.



Fonte: A Tarde

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