Violência psicológica faz mulheres duvidarem da própria realidade

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Aos poucos, uma mulher pode deixar de encontrar os amigos, mudar a maneira de se vestir, evitar determinadas opiniões e passar a medir cada palavra para não desagradar o companheiro. Quando essas mudanças acontecem sob pressão, o que parece uma adaptação da vida a dois pode esconder uma forma de violência que nem sempre é reconhecida por quem a sofre.

De acordo com dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026, cerca de 60.830 mil casos de violência psicológica contra mulheres foram registrados no Brasil de 2024 a 2025, com aumento de 16,9% na taxa de registros. Os números revelam a dimensão do problema, mas não alcançam necessariamente todas as situações vividas.

A violência psicológica pode ocorrer em relacionamentos com namorados, ex-namorados, companheiros, ex-companheiros, ficantes e em relações homoafetivas. Também não está restrita a uma faixa de renda, nível de escolaridade ou profissão.

A dificuldade de identificar o problema está, muitas vezes, na maneira como o controle se mistura à rotina e passa a ser tratado como algo normal.

A guarda civil municipal Géssica Reis, coordenadora da Patrulha Guardiã Maria da Penha (PGMP), explica que algumas relações abusivas começam com demonstrações intensas de atenção, disponibilidade e cuidado.

A mudança pode acontecer depois que a mulher já estabeleceu um vínculo afetivo com o parceiro, dificultando a percepção de que determinadas atitudes ultrapassam os limites do respeito:

“Eles chegam muito corteses, presentes, transmitindo segurança. A mulher começa a se sentir amparada e protegida. De repente, o comportamento muda, mas ela já está envolvida e nem sempre percebe essa transformação.”

Géssica Reis é coordenadora da Patrulha Guardiã Maria da Penha

Géssica Reis é coordenadora da Patrulha Guardiã Maria da Penha | Foto: José Simões/Ag. A TARDE

A interpretação dessas atitudes como preocupação ou proteção pode fazer com que a mulher desconsidere os próprios incômodos, enquanto tenta evitar conflitos ou recuperar a relação que existia no início.

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A mulher acredita que aquilo é segurança, afeto e amor, quando, na verdade, está vivendo uma violência silenciosa

Segundo Géssica, não existe um padrão único de comportamento que permita reconhecer todos os casos. Algumas mulheres identificam rapidamente as restrições impostas pelo parceiro, enquanto outras precisam de tempo e apoio para compreender a situação:

“Não existe uma receita de bolo, algo que eu possa dizer que funciona da mesma forma em todos os casos. Cada situação é diferente. Já acompanhei casos em que a mulher tinha dificuldade para entender e reconhecer que estava dentro do ciclo de violência.”

A dificuldade também pode estar relacionada às expectativas construídas em torno da vida familiar. De acordo com a coordenadora, para algumas vítimas, admitir que estão em uma relação abusiva significa lidar com a possibilidade de interromper planos, rever escolhas e reconstruir a própria vida.

“A gente vive em uma sociedade na qual a mulher é criada para construir uma família. Quando ela sente que está desconstruindo esse projeto, pode achar que está traindo tudo o que construiu e todas as expectativas que alimentou. Por isso, a situação vai muito além do relacionamento em si”, analisa.

Comportamentos de violência psicológica

Nem toda discussão entre um casal representa abuso. O alerta está na presença de atitudes que diminuem a mulher, restringem sua liberdade ou provocam medo de discordar do parceiro.

A Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) reconhece a violência psicológica como uma das formas de violência doméstica e familiar contra a mulher.

Entre os principais sinais estão:

  • Manipulação da realidade: o parceiro nega acontecimentos, altera versões de conversas ou desqualifica a memória da mulher, fazendo com que ela questione a própria percepção;
  • Isolamento social: o agressor dificulta o contato com amigos, familiares e colegas de trabalho, enfraquecendo a rede de apoio da vítima;
  • Controle da rotina: roupas, horários, localização, redes sociais e gastos passam a ser monitorados, como se a mulher precisasse justificar todas as decisões;
  • Desqualificação: críticas constantes à aparência, à inteligência, ao trabalho ou à capacidade de cuidar dos filhos afetam a autoestima e podem provocar sentimentos de incapacidade;
  • Ameaças e chantagens: o parceiro usa os filhos ou ameaças de se machucar para intimidar a mulher e dificultar o rompimento.
  • A dificuldade de reconhecer os sinais pode prolongar o sofrimento

    A dificuldade de reconhecer os sinais pode prolongar o sofrimento | Foto: Imagem gerada por IA/Jaísa de Almeida/Ag. A Tarde

Vítima duvida de si

Uma mulher ouvida pela reportagem do MASSA!, que por motivo de segurança teve o nome preservado e será identificada como Roberta, conta que tentava justificar as restrições impostas pelo companheiro, mesmo quando percebia que estava abrindo mão de partes importantes da própria identidade.

Segundo ela, algumas atitudes pareciam razoáveis à primeira vista, mas contribuíram para que se anulasse em função das expectativas dele.

“Ele tentava muito me podar, e eu percebia que meu inconsciente tentava justificar aquele comportamento para que eu acreditasse que era saudável. Mas, na verdade, eu estava me anulando para caber no mundo ideal que ele havia criado”, detalha.

O relato ajuda a compreender como o abuso pode afetar a autonomia antes mesmo de uma agressão física. Quando a mulher passa a modificar suas escolhas para evitar reações do parceiro, pode ter dificuldade para reconhecer até que ponto suas decisões continuam sendo tomadas livremente.

No caso de Roberta, a situação chegou à violência física durante a gravidez. Ela relata que o companheiro reagiu agressivamente diante de discordâncias e que, depois do episódio, passou a questionar a própria percepção do que havia acontecido:

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Ele não aceitava que eu discordasse dele. veio para cima de mim, depois negou o que havia feito. Naquele momento, fiquei pensando: ‘Será que estou vendo coisas?’

Roberta relata que, após os abusos psicológicos, também passou a sofrer agressões físicas

Roberta relata que, após os abusos psicológicos, também passou a sofrer agressões físicas | Foto: Ilustrativa/Adilton Venegeroles/Ag. A Tarde

A mulher afirma ainda que o parceiro atribuiu os ferimentos a uma queda, versão que não correspondia ao que ela relatava ter vivido. A situação a deixou desnorteada, dificultando a compreensão imediata do episódio.

“Ele me disse que eu havia escorregado e caído, mas não foi isso que aconteceu, porque meu corpo estava roxo. Eu não consegui entender tudo naquele momento, porque não estava me sentindo bem. A situação aconteceu tão rápido que fiquei desnorteada”, completa.

Dificuldade para acabar com o relacionamento

A capitã Ana Cristina, psicóloga (CRP 33836) e coordenadora de Valorização da Mulher da Polícia Militar da Bahia, destaca que a violência em uma relação nem sempre acontece de maneira contínua.

A alternância entre episódios de abuso e demonstrações de carinho pode alimentar a expectativa da vítima para a possibilidade de que o relacionamento volte a ser como era no início.

“Esses agressores não são violentos o tempo inteiro. A relação passa por fases, alternando situações de violência com momentos de afeto. Assim, a mulher pode ficar presa a esse vínculo, esperando que o amor que existia no começo volte.”, afirma.

Capitã Ana Cristina é coordenadora de Valorização da Mulher

Capitã Ana Cristina é coordenadora de Valorização da Mulher | Foto: José Simões/Ag. A TARDE

Ana destaca ainda que a imposição de papéis familiares pode funcionar como instrumento de controle. A decisão de se dedicar à casa e aos filhos não configura violência quando é livremente acordada pelo casal, mas a situação muda quando a mulher é impedida de trabalhar ou de escolher outro caminho.

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Existem mulheres que são impedidas pelo companheiro de trabalhar e acabam obrigadas a ficar em casa. A violência começa quando essa condição é imposta

No caso de Roberta, nossa personagem fictícia, o medo de não conseguir garantir as condições necessárias para criar a filha pesou diante da possibilidade de romper a relação.

“Tive medo de ficar sozinha, de não conseguir garantir o básico para minha filha e de não saber como construir uma nova vida e oferecer o melhor para ela. Muitas mulheres passam por essas dificuldades.”

Ela também relata que o desgaste emocional afetava a maneira como se enxergava como mãe. Para Roberta, divergências sobre a criação da filha eram acompanhadas por situações que a faziam se sentir culpada e insuficiente.

“O desgaste psicológico era extremo, e eu acabava me sentindo insuficiente. Em algumas situações, ele fazia com que eu me sentisse culpada. Ele pensa diferente de mim, mas precisamos chegar a um consenso, pensando no amor e no bem-estar da minha filha. Não é justo usar essas diferenças para me fazer sentir mal”, destaca.

Filhos são afetados

A violência doméstica também afeta os filhos que convivem com as agressões, mesmo quando não são vítimas diretas do agressor. Segundo Dinsjani Pereira, coordenadora de Políticas Públicas para Infância e Adolescência da Secretaria Municipal de Políticas para Mulheres, Infância e Juventude (SPMJ), os impactos variam de acordo com a realidade de cada criança ou adolescente:

“Muitas vezes, a criança ou o adolescente não é o alvo direto da agressão, mas convive com o medo e a insegurança dentro de casa. Essa realidade pode comprometer seu desenvolvimento emocional e psicológico. Podemos observar consequências como ansiedade, dificuldades de aprendizagem e alterações de comportamento.”

Os efeitos da violência psicológica também atinge os filhos

Os efeitos da violência psicológica também atinge os filhos | Foto: Ilustrativa/Reprodução/Magnific

Além dos efeitos emocionais, algumas crianças e adolescentes tentam proteger a mãe ou evitar novos episódios de violência, assumindo responsabilidades que não correspondem à sua idade.

Essa sobrecarga pode prejudicar o desenvolvimento e reforça a importância de uma rede de proteção que acolha não apenas a mulher agredida, mas também os filhos que presenciam as situações de violência.

Em Salvador, o Núcleo Municipal de Escuta Especializada realizou 1.044 atendimentos relacionados a casos de violência contra crianças e adolescentes em 2025. O número corresponde aos atendimentos feitos pelo serviço e não representa, necessariamente, o total de vítimas na capital baiana.

Dinsjani ressalta, no entanto, que o aumento dos registros nem sempre significa que os casos de violência se tornaram mais frequentes: “Registros podem indicar maior ocorrência de casos, mas também podem refletir avanços na identificação das violações, na divulgação dos canais de denúncia e no acesso aos serviços de proteção.”

Como provar a violência psicológica?

A identificação e a comprovação da violência psicológica também podem ser difíceis, já que nem sempre há marcas físicas. Mas saiba o que fazer para documentar a situação:

  • Guarde mensagens e registros digitais: salve conversas, e-mails e publicações com ameaças, humilhações ou tentativas de controle;
  • Preserve áudios e vídeos: mantenha gravações de episódios relevantes, observando os cuidados legais sobre a obtenção e o uso desses materiais;
  • Anote possíveis testemunhas: registre quem presenciou as agressões ou teve contato com seus efeitos;
  • Reúna documentos de saúde: guarde prontuários, atestados e relatórios médicos ou psicológicos que registrem as consequências da violência;
  • Proteja os arquivos: sempre que possível, preserve os originais e mantenha cópias em um local seguro, onde o agressor não tenha acesso.

Caso a mulher não consiga reunir esses registros, isso não significa que ficará sem proteção. A falta de provas documentais não impede, por si só, a concessão de medidas protetivas de urgência.

Segundo o Superior Tribunal de Justiça (STJ), o relato da vítima tem grande importância na análise de casos de violência doméstica e familiar.

Onde buscar ajuda?

A mulher que identifica sinais de violência psicológica pode ainda procurar orientação mesmo que ainda não tenha decidido terminar o relacionamento ou registrar uma ocorrência. Entre os canais de atendimento e proteção disponíveis em Salvador e na Bahia estão:

  • Polícia Militar: ligue para o 190 em situações de emergência ou perigo imediato;
  • Central de Atendimento à Mulher: disque 180 para receber orientações e informações sobre a rede de proteção. O serviço funciona 24 horas por dia;
  • Ministério Público da Bahia (MPBA) — Sede Nazaré: atendimento de segunda a sexta-feira, das 8h às 18h, na Avenida Joana Angélica, 3º andar, sala 303, bairro de Nazaré, Salvador;
  • Casa da Mulher Brasileira: atendimento das 8h às 18h. Telefones: (71) 3242-2633 e (71) 3202-7390. Endereço: Avenida Tancredo Neves, Caminho das Árvores, Salvador;
  • Núcleo de Enfrentamento às Violências de Gênero em Defesa dos Direitos das Mulheres (NEVID/MPBA): atendimento das 8h às 18h, na Avenida Joana Angélica, nº 1312, bairro de Nazaré, Salvador. Telefones: (71) 3103-6592, (71) 3103-6685 e (71) 98141-7724. E-mail: [email protected];
  • Direitos Humanos: Disque 100, canal gratuito que funciona 24 horas por dia para receber denúncias de violações de direitos humanos;
  • Disque Denúncia: ligue para 181, serviço disponível 24 horas por dia para o recebimento de denúncias;
  • Postos de saúde, CRAS e CREAS: oferecem acolhimento, atendimento e encaminhamento para serviços de saúde, assistência social e proteção, conforme a necessidade. O funcionamento varia de acordo com a unidade.

Buscar ajuda pode exigir precauções quando o companheiro monitora o celular ou acompanha a localização da vítima. Reconhecer a violência psicológica é importante para compreender que o controle, a humilhação e a manipulação não são demonstrações de amor.

A proteção depende de informação, acolhimento e acesso aos serviços capazes de orientar a mulher sem responsabilizá-la pelas atitudes do agressor.

Fonte: A Massa

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