Bico vira saída para fazer a renda render em Salvador

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Muitas pessoas precisam dos bicos para complementar renda |  Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Para muita gente, bater o ponto no trabalho já não significa encerrar o expediente. Em Salvador, tem trabalhador que larga uma atividade e começa outra para conseguir colocar mais dinheiro dentro de casa. Doces, bolos, instalações elétricas, faxinas, reformas e outros ‘bicos’ passaram a fazer parte da rotina de quem tenta equilibrar salário e contas no fim do mês.

E essa realidade aparece nos números. Em Salvador, 66% dos entrevistados pela pesquisa Viver nas Cidades: Desigualdades e Mobilidade Social afirmaram ter realizado alguma atividade extra para complementar ou obter renda nos últimos 12 meses. No levantamento anterior, eram 59%. O salto de sete pontos percentuais colocou a capital baiana entre as cidades que registraram crescimento na busca por renda complementar.

Aos 21 anos, Anna Maria faz parte dessa turma que precisa se desdobrar. Ela trabalha em uma empresa de telemarketing, mas o salário da atividade principal não é sua única fonte de renda. Fora do expediente, a jovem também produz doces e bolos para vender e reforçar o orçamento.

“Eu comecei a fazer doces e bolos porque só o salário do telemarketing não estava dando para tudo. Tem conta de casa, transporte, alimentação, e sempre aparece uma despesa a mais. Com as encomendas, consigo ter um respiro no fim do mês”, contou Anna Maria ao MASSA!.

A rotina exige conciliação. Depois das horas dedicadas ao telemarketing, entram em cena ingredientes, encomendas, produção e entrega dos produtos. É justamente a produção de alimentos para venda uma das alternativas encontradas por quem precisa fazer a renda esticar.

“É cansativo porque eu trabalho durante o dia e, quando chego em casa, ainda tenho que preparar as encomendas. Às vezes faço à noite ou no fim de semana, mas é uma renda que hoje faz diferença para mim”, explicou.

Para Anna, a renda extra não significa necessariamente dinheiro sobrando no bolso. Muitas vezes, o valor arrecadado com os doces entra diretamente nas despesas comuns do mês.

“O dinheiro dos doces ajuda principalmente nas despesas do dia a dia. Não é como se sobrasse muito, mas já evita que eu fique apertada ou me prive de comprar algo necessário”, completou.

Anna Maria também faz doces e bolos para conseguir uma renda melhor

Anna Maria também faz doces e bolos para conseguir uma renda melhor | Foto: Arquivo pessoal

Quando o expediente termina, começa o bico

Aos 57 anos, Marcos Lima também conhece bem essa realidade. Ele trabalha em uma empresa do setor de energia e atua com a chamada “linha viva”, serviço realizado em redes elétricas energizadas. Mesmo com uma ocupação fixa, aproveita a experiência acumulada na área para fazer trabalhos de eletricista por fora.

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“Eu já trabalho com energia e, quando aparece um serviço de elétrica por fora, eu pego. É uma forma de complementar a renda, porque hoje você tem o salário, mas as despesas também aumentaram muito”, afirmou Marcos.

Os serviços extras não aparecem, porém, com a mesma frequência todos os meses. A renda obtida com os bicos varia de acordo com a quantidade de clientes e de trabalhos disponíveis.

“Tem semana em que aparece mais serviço e tem semana em que não aparece nada. Então não dá para contar como uma renda fixa, mas, quando entra, ajuda bastante nas contas de casa”, contou.

Para quem já passa boa parte do dia na atividade principal, o complemento financeiro também vem acompanhado de mais horas de trabalho e menos tempo disponível para descanso.

“Eu tento conciliar sem atrapalhar meu trabalho principal e também respeitando meu descanso, porque mexer com eletricidade exige muita atenção. Só que, quando a família tem despesa e aparece um bico, a gente acaba aproveitando a oportunidade”, explicou Marcos.

Salvador teve avanço na busca por renda extra

O movimento visto nas histórias de Anna e Marcos ganhou força na capital baiana. Enquanto o índice geral das dez cidades pesquisadas chegou a seis em cada dez entrevistados, Salvador alcançou 66% de pessoas que disseram ter realizado alguma atividade para complementar ou obter renda.

O percentual representa crescimento em relação à edição anterior da pesquisa, quando 59% dos entrevistados na capital baiana disseram recorrer a trabalhos extras.

O levantamento ouviu moradores de Salvador, Manaus, Belém, Fortaleza, Recife, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre e Goiânia.

Entre as atividades realizadas para conseguir dinheiro extra aparecem serviços como faxina, manutenção, pequenos reparos, reformas e jardinagem, além da venda de produtos e alimentos.

Salário não acompanha o aperto

Mesmo com tanta gente trabalhando a mais, a sensação de melhora financeira ainda passa longe de boa parte dos entrevistados.

Nos últimos 12 meses, 45% afirmaram que a renda pessoal permaneceu praticamente estável. Outros 31% disseram que passaram a ganhar menos, enquanto apenas 18% perceberam aumento nos rendimentos.

Os números ajudam a explicar por que uma segunda fonte de renda deixou de ser apenas uma forma de juntar dinheiro para algum plano e passou a fazer parte da organização financeira de muitas famílias.

Comida pesa bastante

Na hora de dizer para onde o dinheiro vai, a alimentação aparece como o principal peso no orçamento. O gasto foi citado por 47% dos entrevistados. A moradia aparece em seguida, com 27%, enquanto a saúde foi mencionada por 11%.

O aperto também tem provocado mudanças dentro do carrinho de supermercado. A pesquisa identificou aumento no consumo de ovos e redução na compra de carnes, laticínios, frutas, legumes e verduras, indicando uma busca por alternativas mais baratas para manter a comida na mesa.

Em Salvador, esse cenário também aparece no preço dos alimentos. A cesta básica calculada pela Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI) chegou a R$ 608,50 em setembro, após registrar aumento de 3,64% na comparação com o mês anterior.

Entre os produtos que ficaram mais caros estavam itens presentes no dia a dia das famílias, como tomate, flocão de milho e batata inglesa.

É nesse quebra-cabeça entre salário, supermercado, moradia e outras despesas que os ‘bicos’ deixam de ser apenas uma oportunidade de fazer uma grana extra.

Fonte: A Massa

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