Há livros que contam uma história. Outros contam um país. Maria das Tormentas, do escritor são-tomense Lúcio Neto Amado, faz as duas coisas. Mas talvez faça ainda mais: conta como o tempo continua vivendo dentro das pessoas.
Ao terminar a leitura, tive a impressão de que a protagonista não era apenas Maria. Era a própria memória. Uma memória que atravessa gerações, resiste ao esquecimento e insiste em lembrar que o passado nunca desaparece completamente. Muda de forma. Às vezes, transforma-se em saudade. Outras, em silêncio. Muitas vezes, em desigualdade.
A literatura tem esse privilégio que os livros de História raramente alcançam. Enquanto estes registram datas, decretos e batalhas, o romance revela aquilo que os documentos oficiais dificilmente conseguem capturar: o medo, a esperança, a culpa, os afetos e as perdas. É nesse território que Lúcio Neto Amado constrói sua narrativa.
As tormentas do título não pertencem apenas à personagem. São as tormentas da escravidão, da colonização, da independência e da difícil construção de uma identidade nacional.
Tempestades que atravessam São Tomé e Príncipe, mas que, de certo modo, dialogam com toda a história da lusofonia. Afinal, os países de língua portuguesa compartilham não apenas um idioma, mas também memórias que, embora vividas de formas distintas, frequentemente se entrelaçam.
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Enquanto lia, lembrei-me de uma frase atribuída a William Faulkner: “O passado nunca está morto. Nem sequer é passado”. Talvez seja essa a melhor definição para o romance. O ontem permanece habitando o hoje. As marcas da História continuam presentes nas instituições, nas famílias e nas relações humanas.
Vivemos numa época em que tudo parece descartável. As notícias envelhecem em poucas horas. As redes sociais substituem rapidamente uma indignação por outra. A velocidade tornou-se um valor em si mesma. Nesse ambiente, um romance que convida o leitor a caminhar lentamente pela memória quase se transforma em um ato de resistência.
Quem trabalha com políticas públicas e controle externo aprende, cedo ou tarde, que muitos problemas contemporâneos não nasceram ontem. A desigualdade, a pobreza, as fragilidades institucionais e os desafios do desenvolvimento costumam ter raízes profundas. Sem compreender sua história, dificilmente construiremos soluções duradouras.
Talvez seja essa a maior contribuição de Maria das Tormentas. Alertar para o fato de que os povos, assim como as pessoas, não são feitos apenas do que conquistam, mas também daquilo que escolhem lembrar. Porque há tempestades que passam com o vento. E há outras que continuam soprando dentro da memória coletiva, lembrando-nos de que o futuro nunca começa do zero.
*Inaldo da Paixão Santos Araújo é Mestre em Contabilidade, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado da Bahia, professor da Universidade do Estado da Bahia, presidente do Instituto Rui Barbosa, escritor.