Ainda existe muito preconceito e desinformação sobre a cirurgia bariátrica’

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Antes de decidir qual o melhor procedimento para tratar a obesidade e suas comorbidades, o cirurgião e especialista em emagrecimento Raphael Lucena afirma que é preciso olhar cada paciente em sua particularidade.

“Eu avalio cada paciente de forma individual, seu histórico, metabolismo, exames e comportamento alimentar para definir qual estratégia faz mais sentido”, afirma o médico, que já soma mais de cinco mil cirurgias bariátricas realizadas em onze anos de experiência.

Para tratar a obesidade a partir do grau II, associada a outros problemas, como diabetes e hipertensão, ele defende que as intervenções cirúrgicas são as mais indicadas.

Nesta entrevista ao A Tarde, o médico, que atua em São Paulo, fala sobre as novas regras para as bariátricas, em vigor desde o ano passado, sobre a falta de informação e preconceito em torno do assunto e sobre os procedimentos mais recorrentes no país, o by-pass gástrico e o sleeve.

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“A cirurgia é uma etapa do tratamento, não o começo e nem o fim”, afirma o médico, que também também fala sobre os bons resultados dos medicamentos como os análogos de GLP-1, as famosas canetinhas emagrecedoras, e da necessidade de mudança no estilo de vida para o sucesso dos tratamentos e para enfrentar o crescimento da obesidade no Brasil, doença que já atinge mais de 8,6 milhões de pessoas, de todas as idades.

Especialista em videolaparoscopia do aparelho digestivo, dr. Raphael é membro associado da Sociedade Brasileira de Cirurgia Minimamente Invasiva e Robótica, membro especialista da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica e membro associado do Colégio Brasileiro de Cirurgiões.

Atualmente há muita informação sobre a obesidade, uma das doenças que mais cresce no Brasil. O que é a obesidade e quando o paciente deve procurar ajuda?

Obesidade não é só excesso de peso. É uma doença crônica, complexa, que envolve metabolismo, hormônios, comportamento e até fatores emocionais. Eu costumo dizer que o paciente deve procurar ajuda quando percebe que já tentou várias vezes sozinho e não conseguiu manter o resultado. Quando o peso começa a impactar o corpo com cansaço, dor, falta de fôlego ou até a autoestima.

A obesidade não vem sozinha, ela costuma estar acompanhada de outras doenças como hipertensão arterial, diabetes, colesterol alto (dislipidemia), gordura no fígado, ronco e apneia do sono.

Por isso, o ideal é que o tratamento comece já na fase de sobrepeso, com mudanças no estilo de vida, prática de atividade física e alimentação adequada. Não precisa esperar “ficar grave”. Quanto antes a gente entende o que está acontecendo, melhor o caminho.

No ano passado, o Conselho Federal de Medicina publicou novas regras para a cirurgia bariátrica no Brasil, ampliando o número de pessoas elegíveis para os procedimentos. Para que pacientes elas são mais indicadas?

Em maio de 2025 foi liberado pelo Conselho Federal de Medicina uma nova resolução para os pacientes que precisam fazer cirurgia bariátrica, agora com IMC acima de 30 com doenças associadas como diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, doença renal crônica, apneia do sono e gordura no fígado.

Antes dessa resolução os pacientes tinham que ter IMC acima de 35 a 39.9 com doenças ou IMC acima de 40 com ou sem doenças associadas para fazer a cirurgia bariátrica.

As novas regras vieram para corrigir uma realidade que a gente já via no consultório: tem paciente que sofre com obesidade, com doenças associadas, mas não se encaixava nos critérios antigos. Hoje, conseguimos indicar a cirurgia de forma mais individualizada. Principalmente para quem já tem comorbidades, como diabetes, hipertensão, apneia, e não consegue controle com tratamento clínico.

O senhor poderia falar um pouco sobre os principais tipos de cirurgias bariátricas realizadas hoje no Brasil e, particularmente, pela sua equipe?

Hoje, as cirurgias mais realizadas no Brasil são o sleeve e o by-pass gástrico, que são as que eu mais faço no meu dia a dia. Ambas são feitas por videolaparoscopia e são cirurgias minimamente invasivas.

O by-pass é uma cirurgia que acaba sendo mais feita porque é mais metabólica, feita quando o paciente precisa perder mais peso, aqueles com IMC muito alto ou que possuem muitas doenças metabólicas. Além da redução do estômago é feito um desvio no intestino e isso faz com que o paciente perca bastante peso, melhorando a diabetes, a pressão alta, o colesterol alto, gordura no fígado, acaba sendo uma cirurgia mais completa.

O sleeve gástrico é uma cirurgia que tem ótimos resultados, mas só tem efeito restritivo, apenas reduz o tamanho do estômago, influenciando na fome e na perda de peso. Na minha prática, a escolha não é padrão. Eu avalio cada paciente de forma individual, seu histórico, metabolismo, exames e comportamento alimentar para definir qual estratégia faz mais sentido.

O senhor acha que as novas medicações para o diabetes, como a semaglutida e tirzepatida, que provocam grandes perdas de peso, podem substituir procedimentos cirúrgicos em pessoas obesas?

Não substituem. Elas são excelentes ferramentas, mas não são para todos os casos. Tem paciente que vai responder muito bem com medicação. Mas tem paciente que já tem uma doença mais avançada, um metabolismo muito comprometido, e a cirurgia continua sendo o tratamento mais eficaz. Eu não vejo como competição.

Vejo como estratégias que, muitas vezes, se complementam. Seja a cirurgia bariátrica, seja o uso de medicamentos como os análogos de GLP-1, nenhuma intervenção é eficaz isoladamente. A mudança de hábitos alimentares, atividade física regular e acompanhamento multidisciplinar são pilares insubstituíveis de qualquer protocolo de tratamento da obesidade.

Quando estes medicamentos são indicados e como eles agem no organismo?

Essas medicações atuam principalmente no controle do apetite, da saciedade e do metabolismo. São indicadas para pacientes com obesidade grau I ou sobrepeso com comorbidades, dentro de uma avaliação médica.

Mas é importante deixar claro: não é só tomar a medicação, não é milagre. Precisa de acompanhamento, ajuste de hábitos e estratégia. Sem isso, o resultado não se sustenta. Para pacientes com obesidade grau II e III, que possuem vários problemas de saúde, a gente ainda pensa que o melhor tratamento seria a cirurgia bariátrica.

Segundo a Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica entre 2020 e 2024 foram realizadas 291 mil cirurgias no país, a maioria através de planos de saúde ou particulares. O que este número significa e quais são as maiores dificuldades no acesso?

Esse número mostra o quanto a obesidade é uma realidade crescente. E também que mais pessoas estão buscando tratamento. Mas ainda existe muita dificuldade de acesso, principalmente no sistema público. Fila longa, burocracia, falta de estrutura em alguns locais.

E, além disso, ainda existe muito preconceito e desinformação sobre a cirurgia, o que faz muita gente adiar uma decisão importante, vejo isso no dia a dia do meu consultório, depois da cirurgia os pacientes se arrependem de não ter feito antes. Por isso, a melhor forma de diagnosticar, entender e tratar essa doença tão complexa como obesidade é buscando um especialista que fará uma escolha consciente do melhor caminho para cada perfil de paciente.

Quais os principais cuidados quem vai se submeter a um procedimento deste tipo precisa estar atento?

O cuidado começa muito antes do centro cirúrgico. Eu sempre reforço o preparo: avaliar o metabolismo, ajustar hábitos, muitas vezes iniciar medicação, suplementar vitaminas e alinhar expectativas. Além disso, o acompanhamento com equipe multidisciplinar: nutricionista, psicólogo e fisioterapeuta, além de exames pré operatórios completos. A cirurgia é uma etapa do tratamento, não o começo e nem o fim. A mudança de vida para pacientes que desejam e precisam realizar cirurgia bariátrica começa com a atitude de marcar a primeira consulta. Não existe caminho fácil, existe o caminho certo, com orientação médica especializada.

Qual o perfil dos pacientes atendidos pelo senhor? E, em média, quantos procedimentos cirúrgicos o senhor realiza anualmente?

Eu atendo um perfil muito variado. Desde pacientes que estão no início da obesidade que precisam de tratamento medicamentoso, até aqueles com a doença mais avançada já com impacto importante na saúde, quando a cirurgia bariátrica é a mais indicada.

O que todos têm em comum é uma história de tentativas. Gente que já tentou de tudo e está buscando uma solução mais estruturada e resultado mais seguro e duradouro.

Em relação ao número de cirurgias, já realizei mais de 5 mil cirurgias bariátricas ao longo de minha carreira e eu costumo dizer que mais importante do que quantidade é a forma como cada paciente é conduzido e quanto isso vai impactar positivamente na sua vida. Cada caso é único, e eu trato dessa forma com estratégia, individualização e acompanhamento próximo.



Fonte: A Tarde

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