Bento ainda não tinha completado um ano quando ganhou sua primeira camisa de futebol. O presente veio do avô materno – e era azul, vermelha e branca, as cores do Bahia. A reação do pai, o baiano Ícaro Brandão, foi imediata: correu atrás de uma camisa do Vitória para vestir no filho também. O que ninguém esperava era que o bebê fosse ter uma opinião tão clara sobre o assunto.
“Quando ele comprou a do Vitória e vestiu em Bento, houve um episódio de choro bem intenso e aquilo fez com que todos já começassem a deduzir que Bento já preferia o Bahia”, conta a mãe, a internacionalista Laíse Santos.
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Laíse é Bahia. Ícaro é Vitória. Estão juntos há 15 anos, se conhecem desde que eram crianças, e nunca fingiram que essa diferença não existia.
“Sempre soubemos o time um do outro, então, quando começamos a relação não foi nada novo, apenas fazíamos chacota um com o outro quando o time rival perdia”.
A rivalidade, no caso deles, é quase um personagem da história: aparece no chá revelação, nas apostas sobre qual uniforme o filho vestiria primeiro, nas fotos tiradas nas arquibancadas da Fonte Nova e do Barradão.
“Quando ele foi aos estádios pela primeira vez, todos ficavam comparando as feições dele nas fotos para deduzir em qual ele se divertiu mais”, lembra Laíse.
O veredicto, aliás, parece ter sido dado pelo próprio Bento: na Fonte Nova, ele torceu pelos jogadores. No Barradão, reclamou do sol e só melhorou quando apareceram a pipoca e o sorvete.
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A história de Laíse e Ícaro é, de muitas formas, o retrato de um fenômeno que se repete em tantos lares baianos: o Ba-Vi não para na porta de casa. Em Salvador, onde a cidade se divide entre tricolores e rubro-negros, é quase inevitável que o amor apareça do outro lado da torcida.
Charme do acaso
Para a jornalista Juana Castro e o educador físico Pedro Ferreira Cintra, o começo da história tem aquele charme do acaso bem-humorado. Ele chegou à casa de Juana em 2017, a convite de um primo dela, para assistir a um jogo do Botafogo e participar de um churrasco. O time do coração dele, no entanto, era outro.
“Ele era Bahia, porque ele só vive com camisa do Bahia, respira o Bahia”, conta Juana. Ela, por sua vez, é Vitória. Isso nunca foi um problema para o namoro que começou em 2021. Motivo de perturbação, sim, claro.
“Talvez eu tenha uma foto dele murcho na cadeira quando o Bahia tomou uma goleada de 6×0 do Sport”, diverte-se Juana. Entre eles, as provocações são parte do contrato afetivo. Ela diz que o melhor goleiro do Bahia é Rogério Ceni. Ele chama o adversário de Bahia “Fish”, numa referência que mistura zoação com criatividade. Nos clássicos, assistem juntos, cada um com a camisa do seu time. “É a rivalidade mais saudável que existe, garanto”, afirma Juana.
Não pode namorar tricolor
A pedagoga e comissária Marina de Carvalho Sampaio e o piloto de linha aérea Lucas Laniado Nobre se encontraram numa escola de aviação. Antes mesmo de se verem pessoalmente, já tinham dado match num aplicativo de relacionamento, mas Marina havia parado de usar a plataforma sem perceber.
Quando chegou à escola, Lucas já sabia quem ela era. Ela não fazia ideia quem era ele. O que poderia ser um roteiro de comédia romântica ganhou mais um elemento quando, nas aulas, o assunto do futebol surgiu naturalmente. Marina é Vitória. Lucas é Bahia. E havia uma voz na cabeça dela: a do pai.
“Se tinha uma coisa que sempre ouvia de meu pai, era: só não pode namorar tricolor”, conta Marina, com bom humor. A ressalva paterna, porém, nunca foi levada tão a sério por ela. “Lucas também não se importava”. Entre os dois, a convivência com a rivalidade sempre foi tranquila. Marina assiste a jogos do Bahia torcendo contra e Lucas faz o mesmo quando o Vitória entra em campo.
O capítulo mais engraçado da história deles, no entanto, tem um terceiro personagem: o pai de Marina. Logo no início do relacionamento, houve uma comemoração de aniversário na casa da família. O pai foi abrir um presente e encontrou uma caixinha de pães de mel decorados com o escudo do Bahia.
“Meu pai ficou nervoso, todo vermelho e já achando que tinha sido graça de Lucas, afinal ele era o único Bahia ali”, conta. Mas a autoria era de um cunhado do pai, que não torce para time nenhum e quis pregar uma peça. O detalhe que o pai não percebeu na hora, desconcertado que estava: embaixo dos pães de mel do Bahia, havia outros decorados com o escudo do Vitória.
Marina Sampaio e Lucas Nobre + o sogro , Claudio Sampaio
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Foto: Divulgação
A relação de Lucas com o sogro levou um tempo para encontrar seu ritmo. Havia uma regra séria na casa dos pais de Marina: camisa do Bahia não entrava. “Lucas até achou que era brincadeira de meu pai, mas depois entendeu que era verdade”.
Durante um bom tempo, quando saía da casa dos sogros querendo usar uma camisa do Bahia, Lucas esperava chegar do lado de fora para vesti-la. Hoje, o clima é outro. “Finalmente é de boa”, diz Marina. Pai e genro assistem a jogos juntos e se perturbam mutuamente.
Futuro
Quando o assunto são filhos, Marina e Lucas chegaram a um acordo que mistura futebol e alimentação de um jeito bastante original:
“A gente combinou que o time ia ser o pai que escolhia, mas que a alimentação era a mãe, e que a criança seria vegetariana”, diz. O pacto, claro, tem prazo de validade: vale enquanto a criança for pequena. Quando crescer, ela escolhe o clube e o cardápio.
No caso de Laíse e Ícaro, a chegada de uma menina, Olívia, colocou novos elementos no tabuleiro. “Ícaro disse que é justo que eu ‘deixe’ Olívia ser Vitória, já que Bento escolheu o Bahia”, conta Laíse. A resposta dela é a de uma mãe que já conhece bem o jogo. “Eu disse que ela vai escolher o que ela quiser, mas que eu e Bento vamos apresentar o Bahia para ela também”.
Já para Juana e Pedro, a conversa também acontece com frequência. Ele garante que não tem como ter um filho Vitória. Juana discorda: “A criança vai escolher”, conta. “Quero que cresça vendo uma rivalidade saudável, respeitando as escolhas dos outros”.
Há, nessas histórias, uma inversão interessante: a rivalidade Ba-Vi, que nas arquibancadas pode tomar proporções de saga épica, dentro de casa vira material para piada, cumplicidade e, no limite, identidade compartilhada. Os cachorros de Juana e Pedro usam coleiras do Bahia e do Vitória – em rodízio. “Agora são dois cachorros, então dá para usar uma em cada”, explica Juana.
Mas existe um momento em que toda essa rivalidade doméstica se dissolve de vez, quase por magia: a Copa do Mundo. Quando a seleção brasileira entra em campo, tricolores e rubro-negros se encontram no mesmo lado do sofá, vestindo a mesma camisa amarela, torcendo para o mesmo gol. “A tensão do Ba-Vi some”, conta Juana.
Conversão
A jornalista Clarissa Pacheco Rios encontrou na companheira Tereza Cristina uma tela em branco quando o assunto era futebol. A mineira Tereza não tinha clube de coração definido, o que para Clarissa representou uma oportunidade irresistível.
“Eu percebi que eu podia trazer ela para o lado tricolor da força quando ficou evidente que, na verdade, ela não era uma torcedora fervorosa de ninguém”, lembra. “Tinha um vácuo de torcida que precisava ser ocupado e é óbvio que seria pelo Bahia”.
A conversão, no entanto, não foi completa. Tereza já torcia pelo Cruzeiro e só decidiu comprar uma camisa quando soube que ia mudar de estado. “Como se fosse algo que identificasse de onde eu estava vindo”, explica. A única linha vermelha, segundo ela, era clara: “A única coisa que eu realmente não podia era ser Vitória”, lembra.
Clarissa segue na missão. “Eu adoro futebol, então, fico tentando convencê-la a gostar também”. Quando o assunto é futebol feminino, as duas assistem juntas. No masculino, é cada uma no seu canto.
“Eu endoido sozinha assistindo o Bahia”, diz rindo. Por enquanto, a conversão está em andamento, mas ao menos o lado rubro-negro foi descartado. “Para uma torcedora do Bahia em Salvador, já é um bom começo”, diz Clarissa.
Clarissa Pacheco e Tereza Cintra
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Foto: Divulgação
No fim das contas, o que essas histórias têm em comum é mais do que o futebol. É a capacidade de fazer da diferença não um obstáculo, mas um enredo.
Em Salvador, onde o Ba-Vi é quase uma instituição cultural, amar alguém que veste outra camisa é também uma escolha – e uma que parece render, a cada clássico, novas histórias para contar. A rivalidade continua. O amor também.