Endometriose: entenda doença que muda rotina de mulheres

8

O Ministério da Saúde estima que a doença atinja entre 5% e 15% |  Foto: Marcos Santos / USP Imagens

O ciclo que deveria ocorrer normalmente todo mês muitas vezes tira a paz de diversas mulheres. Em alguns casos, no período menstrual é necessário a intervenção médica para que se tenha o real diagnóstico e como deve tratar dores que podem ser causadas por uma doença: endometriose.

A técnica em química Adrielly Santana, 23 anos, relata que o ciclo menstrual nunca pareceu apenas um momento do mês. As dores eram tão intensas que a impediam de estudar, trabalhar e até de ficar em pé. A situação frequente fez com que a própria mãe já percebesse que havia algo errado.

Aspas

Minha mãe sempre falava que a minha menstruação não parecia uma menstruação, ela parecia uma doença.

Adrielly Santana

A mesma história se repete na vida da estudante Emilly Sancho, 23. Desde a primeira menstruação, as cólicas sempre foram diferentes das amigas e familiares. Com o passar do tempo, vieram as faltas na escola, no trabalho, as crises de dor e as idas à emergência. “Observando ao meu redor, percebi que minhas amigas da escola, familiares… isso não era comum entre elas. Sabia que tinha alguma coisa errada”, relatou.

Apesar de perceberem que aquela dor não era normal, as duas demoraram anos para descobrir que conviviam com a endometriose, doença ginecológica crônica que, de acordo com o artigo “Endometriose: Uma revisão sobre o diagnóstico e o manejo clínico, publicado em 2025”, afeta cerca de 10% das mulheres em todo o mundo. Conforme dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), sendo uma das patologias benignas mais frequentes na ginecologia.

O que é a endometriose

“A endometriose é quando o tecido do útero, endométrio, localizado no interior do útero, ao invés de estar dentro do útero, está em outras regiões. Ele pode estar localizado no intestino, nos ligamentos de sustentação do útero, na bexiga, e em outros órgãos” explica a ginecologista Camila Paula, especializada em cirurgia ginecológica.

Apesar das inúmeras pesquisas relacionadas ao tema, a especialista ressalta que ainda não existe uma explicação definitiva para a origem da doença. “Existem diversas teorias para explicar, mas nenhuma delas especifica a fisiopatologia”.

Na foto, Dra. Camila Paula, especialista em cirurgia ginecológica

Na foto, Dra. Camila Paula, especialista em cirurgia ginecológica | Foto: Cristian Carvalho

Não é só uma cólica

Durante muitos anos, Adrielly, assim como a maioria das mulheres, acreditou que aquela dor fazia parte da experiência de menstruar. Afinal, desde pequena ouvia que cólica era algo comum.

Com o tempo, porém, ela percebeu que seu caso era diferente “Eu achava que era normal porque minha mãe e minha irmã sempre falavam que a cólica doía. Mas a minha cólica realmente era muito intensa”, disse ao MASSA!

Aspas

Eu cheguei a desmaiar de dor de cólica.

Emilly Sancho

Além da cólica intensa, a doença pode provocar dor pélvica crônica, aumento do fluxo menstrual e, em mulheres sexualmente ativas, dor durante a relação sexual.

A médica destaca que dores que interrompem suas atividades nunca devem ser encaradas como algo esperado: “Mesmo que seja uma dor leve, dor moderada ou dor grave, é uma dor, e dor a gente tem que ligar o sinal de alerta em qualquer circunstância”.

É justamente essa incapacidade que marcou a juventude das duas entrevistadas.

Na foto, Emilly Sancho bacharel em ciência e tecnologia

Na foto, Emilly Sancho bacharel em ciência e tecnologia | Foto: Fernando Lopes Fotografia

Emilly precisou reorganizar toda a rotina em função da doença. Ela conta que chegou a evitar marcar compromissos importantes nos primeiros dias da menstruação porque nunca sabia como estaria. “Quando eu tinha crises muito fortes, eu precisava cancelar compromisso, já faltei à escola, trabalho por conta disso, porque eu realmente precisava ir para a emergência e tomar medicação venosa para conseguir lidar com a dor”.

Trajetória até o diagnóstico

Emilly e Adrielly passaram por diversos atendimentos médicos e recebiam respostas simplistas para o caso. Somente após terem ouvido falar da doença, elas procuraram especialista em endometriose.

Emilly teve a positiva por meio de uma ressonância magnética, enquanto Adrielly foi assertiva no local do tratamento: “Eu passei por alguns médicos até encontrar o Centro de Endometriose da Bahia, que é onde eu faço tratamento atualmente”.

Na foto, Adrielly Santana,  téc. em química

Na foto, Adrielly Santana, téc. em química | Foto: Arquivo

Adrielly conta que, durante muito tempo, o tratamento foi feito com uso de anticoncepcionais para interromper a menstruação, mas sem uma investigação aprofundada da origem das dores.

A ginecologista Camila explica que o diagnóstico é feito por meio da avaliação clínica associada a exames de imagem, principalmente o ultrassom transvaginal com preparo para pesquisa de endometriose profunda ou a ressonância magnética da pelve.

Mesmo assim, ela alerta que exames normais não descartam a doença. “Para aqueles pacientes que não conseguem fazer o diagnóstico por meio do exame de imagem, mas que têm muitos indícios clínicos de endometriose, nós devemos tratar como endometriose, mesmo que o exame não confirme isso”.

Tratamento como divisor de águas

Embora a endometriose não tenha cura, o tratamento pode devolver qualidade de vida às pacientes. Ambas afirmam que a mudança foi significativa.

“A minha qualidade de vida melhorou muito, mas é algo que eu preciso manter, constância nos exercícios. Comparado com o que eu senti anteriormente, os sintomas melhoraram uns 80%”, afirmou Emilly

Adrielly também descreve o diagnóstico como um divisor de águas. “Depois que eu tive o diagnóstico, eu parei de ter dores. O diagnóstico me deu uma libertação.”

Segundo a médica, o principal objetivo do tratamento é controlar os sintomas, impedir a progressão da doença e devolver qualidade de vida às pacientes. Entre as jovens, o bloqueio hormonal, por meio de anticoncepcionais, costuma ser a primeira estratégia terapêutica, sempre de acordo conforme cada caso.

“Ninguém vai sentir a sua dor”

Para as que vivem com a doença, a principal mensagem para outras mulheres é de não normalizar o sofrimento.

“Eu diria para essas meninas para não deixarem ninguém validar a dor delas, porque a dor é algo muito individual, só quem sente é quem está passando ali pela situação”, disse Emilly

Camila Paula reforça que, apesar de ser uma doença crônica, a endometriose pode ser controlada quando diagnosticada precocemente e acompanhada de forma adequada. Além dos medicamentos, práticas como atividade física, alimentação equilibrada, fisioterapia pélvica, acupuntura, yoga e meditação podem contribuir para melhorar a qualidade de vida.

Enquanto aprende a conviver com a doença, Emilly resume a experiência em uma frase que também serve de alerta para outras jovens.

Aspas

É um constante aprendizado e adaptação da rotina. Conviver com a doença crônica não é fácil, mas a gente aprende a lidar com ela

Fonte: A Massa

Artigos relacionados

Geral

PM mata homem para impedir tentativa de feminicídio na Bahia

O homem teria sacado uma arma de fogo e disparou contra a...

Geral

Largo dos Mares vira abrigo pra galera vulnerável

Salvador possui aproximadamente 5.300 pessoas em situação de rua |  Foto: Ana...

Geral

Operação contra policiais cumpre mandados em Vila Laura e na RMS

Os policiais são investigados por homicídio qualificado e fraude processual |  Foto:...

Geral

Homem é preso ao tentar furtar vaso sanitário de delegacia

Ação ocorreu no oeste da Bahia |  Foto: Divulgação/Polícia Civil Um homem...