Uma incessante negociação comercial entre os Estados Unidos (EUA) e o Brasil chegou a um momento decisivo na quarta-feira, 15. O presidente Donald Trump (Republicanos) confirmou a tarifa que pode chegar a até 37,5% sobre produtos brasileiros.
A possibilidade do tarifaço para o Brasil surge após o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), órgão do governo americano responsável por negociações de comércio exterior, encerrar uma investigação contra o Brasil, e acusar o país de favorecimento através do Pix em detrimento de outros meios de pagamento, especialmente aqueles operados por empresas norte-americanas do setor financeiro.
Com a medida imposta, o Brasil se torna o país com a segunda maior tarifa, perdendo apenas para a China, que lidera a lista do tarifaço. As informações são de uma iniciativa chamada Global Trade Alert (GTA), em que dados de comércio global são compilados pelo St. Gallen Endowment, um centro de estudos independente baseado na Suíça.
Impactos na Bahia
De acordo com os especialistas da Federação de Indústria do Estado da Bahia (Fieb), as tarifas norte-americanas representam um dos maiores choques externos ao comércio exterior brasileiro dos últimos anos. Com US$ 42,3 bilhões em exportações brasileiras para os EUA, mapeadas por faixa tarifária e mais de US$ 880 milhões da Bahia diretamente expostos, a entidade destaca a importância de monitorar o cenário.
Essa possibilidade também preocupa o agronegócio, que enxerga o tarifaço como uma entrave para as exportações. Na Bahia, entidades ligadas ao setor temem perdas de receitas, queda na produção e impacto na relação norte-americana; uma vez que os Estados Unidos é um dos parceiros comerciais do estado, segundo dados da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI).
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Principais setores impactados na Bahia
Para a SEI, 28% dos produtos exportados pela Bahia aos Estados Unidos podem ser afetados pelo tarifaço, se de fato for aplicado. O impacto terá maior relevância para os seguintes setores:
- Pneumáticos
- Químicos
- Papel
- Plásticos
- Calçados
- Ferroligas
- Sisal
- Pescados
De acordo com Arthur Souza Cruz, economista da SEI, apesar de atigir uma parcela significativa da cadeia produtiva da Bahia, os Estados Unidos perdeu muita participação na parceria comercial com o estado nos últimos anos com o estado, que construiu uma pauta mais diversificada com o comércio exterior.
“Para se ter ideia, em 2003, 2003, os Estados Unidos representavam 30,6% das exportações baianas; no ano passado 7,1%; e neste semestre, 6,3%. O país já foi ultrapassado pela China, que é o maior destino da Bahia, atualmente. Mais de ¼ da nossa renda externa vão para China, basicamente de commodities”, explica o especialista.
Ainda segundo o economista, as medidas comerciais dos Estados Unidos não terão reflexos na economia doméstica baiana. Arthur Souza Cruz explica que, assim como a primeira taxação imposta ao Brasil no ano passado, os produtos podem ser “redirecionados” para novos parceiros comerciais.
“As empresas já estão há algum tempo se preparando desde o tarifaço de 50% sobre os produtos brasileiros. O que resultou na redução da participação dos Estados Unidos como destino das exportações. Mas geralmente o Itamaraty e o Apex [agência que promove os produtos e serviços brasileiros no exterior] vem buscando redirecionar mercados para os produtos que são exportados para os Estados Unidos”, continuou ele.
Lista de produtos taxados
Alguns produtos devem ser isentos das tarefas, como café, carne bovina e fertilizantes, mas a lista deve ser ampliada após a aprovação do tarifaço. Entre os itens que estão na lista de isenção, segundo dados divulgados pelo Federal Register, o diário oficial dos EUA, estão:
Alimentos
- Carne bovina
- Frutos do mar e derivados
- Hortaliças e fungos
- Raízes e tubérculos
- Frutas
- Nozes
- Café e outros estimulantes
- Bebidas e estimulantes
- Cacau e derivados
- Especiarias
- Produtos processados
Recursos naturais, minerais e combustíveis
- Minérios
- Minerais
- Energia e combustíveis
Produtos Químicos, Fertilizantes e Medicamentos
- Químicos industriais
- Fertilizantes
- Saúde e Farmacêuticos
Setor Aeroespacial e outros itens industriais
- Motores e peças
- Componentes de voo
- Equipamentos internos
- Materiais diversos
- Madeira
- Papel e celulose
- Metais preciosos
- Tecnologia
Já os itens que ficarão fora das exceções são:
- Etanol
- Máquinas agrícolas
- Vestuário
- Maquinário elétrico
- Calçados
- Ferramentas de jardinagem
- Equipamentos de mineração
- Papel
- Açúcar orgânico
- Bens de capital
- Manufaturados em geral
- Produtos químicos diversos
- Itens industriais processados
Etanol em meio à guerra fria
Nos últimos anos, o Brasil começou a se destacar na produção de etanol com biomassas; uma delas é o milho, que ocupa uma parte prepoderante no mercado de commodities.
O etanol está na lista de produtos que devem ser impactados com a medida de Trump. Especialistas acreditam que o etanol seja a maior preocupação, com a taxação dos EUA, entretanto pode não ter impacto tão grande para o Brasil
“Hoje o Brasil consome cerca de 20 milhões de toneladas de milho para etanol, tem sido um segmento que tem crescido de forma bastante acelerada e responde por 22% do consumo interno de milho no Brasil. No entanto, o volume exportado de etanol para os Estados Unidos tambem é reduzido pois este é o maior produtor de etanol do mundo com cerca de 60 bilhões de litros contra 40 bilhões do Brasil, sendo destes 10 bilhões de etanol de milho.”, explica Daniel Rosa, diretor-técnico do Abramilho.
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Em contrapartida, os norte-americanos rebatem as tarifas imposta pelo Brasil sobre o produto originado dos EUA. Produtores rurais e usineiro americanos pedem que o país reduza a tarifa de importação, que atualmente esté em 18%.
“Caso o Brasil reduza a tarifa há uma preocupação de uma inundação de etanol americano no Brasil que pode afetar diretamente a rentabilidade das usinas brasileiras e, em consequência, uma redução da demanda por milho para etanol. Isso traria uma queda nos preços pagos aos produtores. No entanto, o Governo Brasileiro já sinalizou que não pretende alterar essa tarifa de 18%. A Abramilho está acompanhando de perto para garantir que esse tema não entre no debate”, explicou Rosa.
Tarifaço e um tiro no pé do próprio Trump
Especialistas em economia internacional ouvidos pelo Portal A TARDE explicam, entretanto, que essa imposição é mais prejudicial à economia estadunidense do que à brasileira.
“A exemplo do que foi o primeiro tarifaço, nós conseguimos rapidamente nos realocar e nos reinserir nos novos mercados mundiais. O impacto tende a ser pequeno para o Brasil no que se refere a exportações, mas o impacto é muito maior para a economia norte-americana. Os Estados Unidos estão com uma alta inflacionária, e essa alta tende a aumentar à medida em que você sobretaxa produtos brasileiros. Ou seja, é um tiro no pé do próprio Trump, que vai ter uma eleição agora de meio de mandato.”, explica a economista Daniela Pinto Cardoso.
Para ela, apesar do governo divulgar uma lista de exceções de produtos impactados com o tarifaço, os produtos mais consumidos pelos norte-americanos estão fora da lista, o que pode ser uma medida para atenuar o impacto financeiro aos EUA.
“Isso atenua, mas não elimina o impacto inflacionário que a importação dos produtos vai sofrer”, continua ela.