conheça a história da jovem de Biritinga

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Natural de Biritinga, município situado na região sisaleira da Bahia, a história de Gabriele Souza Costa, de 21 anos, é daquelas que revelam o poder da educação. Hoje, ela cursa o 1º semestre de Agronomia, na Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs) – um sonho que parecia improvável durante a infância, marcada por dificuldades de aprendizagem, insegurança e um percurso escolar cheio de obstáculos.

Criada pela avó desde os quatro anos, Gabriele cresceu em um contexto de limitações, tanto familiares quanto educacionais. Sem a presença do pai, mas ao lado da mãe, Rosilene de Souza, e de dona Maria das Graças de Souza [avó], ela enfrentou, desde cedo, barreiras que impactaram diretamente sua alfabetização.

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“Minha avó sempre foi importante para minha vida. Ela sempre foi apaixonada e fazia tudo por mim. Só que ela também não teve uma criação muito boa. Ela só estudou até a 2ª série, na época dela se chamava assim, então nem foi culpa dela não participar muito disso. Eu sempre tive muita dificuldade mesmo, só que nesta época a escola não era tão boa como é hoje. Só me passava pela idade e eu cheguei aos 9, 10 anos sem saber ler e contar direito”, relatou.

O atraso na aprendizagem afetava também a forma como ela se via dentro da escola. O ambiente, que deveria acolher, muitas vezes ampliava o sentimento de exclusão.

“Eu não gostava muito de ir, não. Me sentia deslocada, ficava triste. As outras crianças sabiam ler e elas faziam bullying comigo. E quando uma criança começa a não se sentir bem num ambiente escolar, ela tem atrasos, né?”, contou.

A primeira leitura e professores que mudaram destinos

A virada começou em 2015 quando Gabriele foi alfabetizada, aos 11 anos. A primeira leitura foi uma matéria jornalística – um detalhe simbólico para quem, desde pequena, demonstrava interesse em assistir aos noticiários científicos e rurais. “Eu sempre gostei de assistir o jornal desde criança”.

No Ensino Fundamental II, o incentivo dos professores foi decisivo para que ela não desistisse. Um dos momentos mais marcantes, segundo Gabriele, foi quando ouviu de um professor uma história parecida com a sua, mostrando que o tempo de aprendizagem não é único para todos.

“O professor Alex me contou que o desenvolvimento dele também foi tardio. Que ele só foi se interessar mesmo pelo colégio aos 14 anos e, por isso, que se formou na faculdade tarde. Mas que está fazendo doutorado e que o estudo é importante para a vida das pessoas e que as pessoas devem continuar estudando. Foi como um incentivo mesmo”, lembrou.

Passo a passo, Gabriele foi consolidando sua base educacional. Já no Ensino Médio, no Colégio Estadual de Tempo Integral de Biritinga, sua trajetória ganhou um novo rumo.

“Ah, eu amei meu colégio. O diretor, os professores foram incríveis… eu não consegui pagar a isenção da taxa do Enem, e a professora Joanne de Língua Portuguesa, pagou para mim. O professor Mateus, de Sociologia, sempre me incentivou a estudar. Eles tiravam um tempinho para nos ajudar para o Enem. Teve uma professora de redação também que nos ajudou muito. Ela dava um curso pago e ela passou a dar um curso gratuito para gente que não tinha condição”, contou.

Gabriele ao lado dos professores Mateus Tavares ( Sociologia) e Joanne Mary (Língua portuguesa ) | Foto: Divulgação

Da feira de ciências ao sonho universitário

Foi também nesse período que novas experiências ampliaram seus horizontes. Ao participar do clube de ciências “Cientificamente”, Gabriele conquistou o segundo lugar na categoria Meio Ambiente da 21ª edição da Feira Nordestina de Ciências e Tecnologia (FENECIT), e foi em uma dessas vivências, durante uma visita a Feira de Santana, que ela conheceu a universidade que, mais tarde, se tornaria seu principal objetivo.

“Nosso clube de ciências veio para uma feira que teve em Feira de Santana, e a professora que estava com a gente fez assim: ‘vocês querem conhecer a UEFS?’ E todos nós topamos. Ela trouxe a gente pra cá e nos apresentou alguns módulos porque aqui é muito grande. E eu me apaixonei e falei: ‘pró, eu vou fazer meu curso aqui, eu vou estudar aqui’”, recordou.

Equipe do clube de ciências “Cientificamente”

Equipe do clube de ciências “Cientificamente” | Foto: Divulgação

Até então, os planos eram outros. Direito, Veterinária e História estavam entre as opções, mas a escolha por Agronomia veio após uma descoberta mais aprofundada sobre a área e suas possibilidades, especialmente na Bahia.

“Eu sempre amei essa parte de licenciatura e os professores sempre me perguntavam se eu queria ser professora, só que depois eu fui estudar mais sobre a área de Agronomia, e vi que era uma área que eu gostava, que eu tinha interesse, que também poderia trabalhar tanto com área de plantas quanto de animais e é uma área que está crescendo, principalmente na Bahia”, explicou.

A aprovação veio por meio do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), via Sistema de Seleção Unificada (Sisu). A espera pelo resultado foi cercada de ansiedade.

“E eu fiquei: ‘Meu Deus, será que meu nome vai sair da lista?’”. Quando a aprovação veio, foi recebida como uma conquista coletiva, compartilhada com a família e com a comunidade escolar. “Falei para minha família, falei pro pessoal do colégio e todos disseram: ‘ah Gabi, a gente já sabia que você ia passar’”, contou, emocionada.

Entre a universidade, a maternidade e novos caminhos

Hoje, vivendo na Princesa do Sertão durante a semana e retornando a Biritinga nos fins de semana [aproximadamente 100km], Gabriele concilia os desafios da graduação com a maternidade. Mãe de João Miguel, de 2 anos, ela enfrenta percalços diários de quem precisa equilibrar estudos, responsabilidades e sonhos. A decisão de sair de casa foi cercada de sentimentos, especialmente para a avó, figura importantíssima em sua trajetória.

“Minha avó ficou muito feliz, mas ficou com aquele receio de vó porque eu sempre estive ali debaixo das asas dela e depois ir pra longe… quando eu falei que eu ia cursar Agronomia, ela perguntou: ‘o que é isso?’ Aí eu disse: ‘vovó, é pra estudar coisas da terra’. Ela respondeu: ‘oxi, vai capinar?’”, disse aos risos.

Gabriele durante uma aula de campo

Gabriele durante uma aula de campo | Foto: Divulgação

Primeira da família a ingressar no Ensino Superior, Gabriele simboliza uma ruptura histórica e, ao mesmo tempo, a continuidade de um sonho coletivo.

“Eu sou a primeira da minha família a entrar em uma universidade. Ninguém da minha família nunca teve um ensino técnico, infelizmente foi nos negado, mas as políticas públicas estão aí para ressignificar isso tudo e eu tive essa oportunidade. E é uma oportunidade muito gratificante representar todos aqueles meus antepassados que não tiveram essas oportunidades e que a educação foi renegada para muita gente. E eu não estou aqui para ser melhor do que ninguém, mas para levar conhecimentos a essas pessoas”, afirmou.

Da história individual à transformação coletiva

A trajetória de Gabriele até a universidade não é um fato isolado, mas reflete mudanças estruturais na educação baiana, especialmente com a ampliação do Ensino em Tempo Integral. No território do sisal, já são 31 unidades neste modelo. Em todo o estado, mais de 100 escolas foram implantadas, segundo a Secretaria da Educação do Estado (SEC).

Dados recentes apontam impactos diretos dessa política: a taxa de abandono escolar caiu de 11,5% em 2021 para 5,4% em 2023.

Em entrevista à reportagem de A TARDE, a superintendente de Políticas para a Educação Básica da SEC, Helaine Souza, pontuou que a ampliação do tempo escolar fortalece o vínculo entre estudantes e escola, estimula o protagonismo juvenil e contribui para a redução das desigualdades sociais, ao garantir acesso a alimentação, atividades culturais, esportivas e acompanhamento pedagógico.

“Na Bahia, a expansão das matrículas em tempo integral tem ampliado o alcance dessas estratégias, fortalecendo as políticas de permanência e aprendizagem. Ressalta-se, contudo, que os resultados alcançados não se vinculam exclusivamente ao aumento do tempo de permanência na escola, mas, sobretudo, à intencionalidade pedagógica que orienta a educação integral, demandando investimentos contínuos em currículo, formação docente, infraestrutura e gestão escolar”.

“Dessa forma, a política contribui para a redução do abandono escolar ao assegurar um ambiente protetivo, suporte pedagógico qualificado e experiências educativas que promovem o engajamento estudantil, além de garantir a segurança alimentar por meio da oferta de alimentação escolar. A ampliação da jornada, nesse contexto, reduz o tempo ocioso, mitiga fatores associados à evasão e favorece o desenvolvimento integral dos estudantes em suas dimensões intelectual, emocional, social e física”, completou.

Para estudantes que chegam ao Ensino Médio com lacunas de aprendizagem, a rede estadual também adota estratégias específicas, como diagnósticos iniciais, planos de recomposição em leitura e matemática, além de monitoria entre estudantes.

Acesso não basta: o desafio da permanência

No Ensino Superior, os desafios continuam e as políticas de permanência tornam-se fundamentais. De acordo com a reitora da Uefs, Amali de Angelis Mussi, a universidade oferece suporte por meio do Programa de Assistência Estudantil (PAE), com acesso a restaurante universitário, residências, apoio psicossocial e auxílios financeiros. Há também ações voltadas à inclusão de estudantes com deficiência.

“A Universidade de Feira de Santana entende a importância de você ter política de permanência, não só de acesso. Acesso a gente tem, que é via Sisu, mas o estudante chega aqui e precisa ter condições de permanência. Então, nós temos vários programas de apoio. […] O clima universitário precisa ser um clima de acolhida. Então, nós investimos bastante na área dos esportes, temos várias atléticas que participam de campeonatos”, explicou.

No campus, é possível ainda encontrar o Centro de Agroecologia Rio Seco (CEARIS), uma unidade extra situada em Amélia Rodrigues, também na Bahia, que desenvolve atividades de ensino – principalmente para o curso de Agronomia -, pesquisa e extensão, incluindo a Rede Aítanda Agroecológica e o Núcleo de Estudos em Agroecologia.

Criado em 2014, o centro é referência na promoção de sistemas alimentares sustentáveis, agroflorestas e na integração com a agricultura familiar da região.

“É uma universidade onde o estudante chega de manhã e, se puder ficar o dia todo na universidade, todos os dias, ele tem o que fazer: ensino, pesquisa e extensão, lazer, esporte, biblioteca, para que possa ter um desenvolvimento integral e estar preparado para atuar na sua área de conhecimento”, destacou Amali.

Alta adesão ao Sisu na Bahia

Gabriele na Uefs

Gabriele na Uefs | Foto: Divulgação

Assim como Gabriele Souza Costa, outros 23.477 estudantes da rede estadual conquistaram uma vaga no Ensino Superior por meio do Sisu 2026. De acordo com a SEC, a Bahia atingiu a marca de 99% de ocupação das 24,7 mil vagas ofertadas. Entre os cursos mais disputados, Psicologia na Universidade do Estado da Bahia (UNEB) liderou o índice de concorrência.

No estado, além da Uneb e da Uefs, destacam-se também a atuação da Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc) e da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), que ampliam o acesso ao Ensino Superior em diferentes regiões.

Em sessão especial realizada em 16 de abril de 2026, a Assembleia Legislativa da Bahia (ALBA) celebrou os 80 anos da Universidade Federal da Bahia (Ufba) e os 50 anos da Uefs. Proposto pela presidente da Comissão de Educação, Cultura, Ciência e Tecnologia e Serviços Públicos, deputada Olívia Santana (PCdoB), o evento contou com a presença de um grande público de acadêmicos, intelectuais, estudantes, artistas, representantes de entidades sindicais e movimentos sociais.

A reitora da Uefs, Amali Mussi, afirmou receber a homenagem com orgulho e responsabilidade, destacando o caráter coletivo da construção da universidade ao longo de cinco décadas. Ela ressaltou ainda o papel da instituição na interiorização do ensino superior e na transformação social.

Para Amali, “o futuro da Bahia passa pela consolidação e autonomia das universidades públicas. Que sigamos do lado da educação pública, da inclusão, da ciência e da transformação social”.

Na abertura da sessão, Olívia Santana relembrou a trajetória das duas instituições. Fundada em 1946, a Ufba é uma das mais antigas do país e, ao longo de oito décadas, tornou-se referência nacional na produção de conhecimento, na formação acadêmica e na promoção da cultura, da ciência e da inclusão social.

Já a Uefs, criada em 1976 em Feira de Santana, nasceu com o propósito de interiorizar o Ensino Superior no estado. Além de ser um espaço de produção de conhecimento comprometido com a realidade social, econômica e cultural, a parlamentar destacou o papel da universidade na formação de lideranças que vêm contribuindo para a transformação da Bahia, como os secretários estaduais Felipe Freitas (Justiça e Direitos Humanos) e Roberta Santana (Saúde), além do governador Jerônimo Rodrigues, que já integrou seu corpo docente.



Fonte: A Tarde

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