Droga lícita e encontrada em milhares de estabelecimentos comerciais por toda a Bahia, o álcool é a substância mais preocupante em termos de saúde pública no estado. Os índices de consumo são preocupantes.
Dados publicados no mês passado pelo Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (Cisa) colocam a capital baiana na liderança em percentual de consumo abusivo de bebidas alcoólicas, com 28,9%, quase o dobro do percentual de Natal (RN), de 15,5%, e Rio Branco (AC), 15,1%.
Há três anos, um projeto da sociedade civil, com recursos de um edital público, promove a chamada redução de danos no co nsumo de álcool e de outras drogas no estado. Redução de danos é uma estratégia adotada por agentes de saúde que busca iniciar um tratamento com pessoas que abusam no consumo dessas substâncias, sem exigir a abstinência.
Leia Também:
Batizado de Horizontes do Cuidado [@horizontesdocuidado], esse programa é executado pela Rede Brasileira de Redução de Danos (Reduc), em parceria com a Plataforma Brasileira de Política de Drogas (PBPD).
“O álcool é uma substância que tem relação com altos índices de morte e de violência, e a gente acaba normalizando muito. É preciso debater a regulamentação do álcool”, afirma a coordenadora do Horizontes do Cuidado, Mariana Feregueti.
Mariana destaca o álcool como grande vilão da saúde pública no Brasil, mas também chama a atenção para o importante crescimento do uso de K9, droga sintética com alto poder de destruição do organismo.
“A gente tem identificado o aumento do uso dessa droga no Centro de Salvador. É algo que acende um alerta”, explica Mariana, que tem proposto um modelo novo de tratamento da questão do abuso de drogas, em função das informações colhidas junto a usuários e de quem trabalha na ponta do atendimento às pessoas.
O Horizontes do Cuidado, aliás, na sceu na PBPD, a partir de escutas à população nas cinco regiões do País. “Isso foi feito para se entender o que era necessário fazer para a política de redução de danos”, afirma a coordenadora do projeto.
A partir dessas escutas, os profissionais envolvidos viram a necessidade de interiorização dessa política. “Acaba  ;havendo uma concentração do atendimento nas capitais e cidades com maior população”, afirma Mariana.
A partir dessa conclusão, a Superintendência de Políticas Sobre Drogas e Acolhimento a Vulneráveis (Suprad) lançou um edital chamado Pontos de Cuidado, util izando a estrutura já existente dos Pontos de Cultura, projetos financiados pelo Ministério da Cultura que promovem ações socioculturais para a comunidade. O Suprad, que implementa políticas de redução de danos, por sua vez, é vinculado à Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social do Estado da Bahia (Seades).
No caso do Horizonte do cuidado, o financ iamento do Governo Federal às políticas de redução de danos é destinado a entidades civis que já oferecem assistência a pessoas vulneráveis ao vício. “A gente trabalha a redução de danos a partir de um conceito ampliado de acesso a direitos. É uma política alternativa a essa que a gente tem, de encarceramento”, compara Mariana.
Em 2025, primeiro ano do projeto , foram levadas iniciativas a Feira de Santana, Vitória da Conquista e Ilhéus. Este ano, a equipe repetiu Feira e também foi a Porto Seguro, Juazeiro e Lauro de Freitas, além de Salvador, onde fica a base do projeto. “A gente vai aos serviços, como Bahia Pela Paz, Caps, Caps 2, escuta quais são as fragilidades, oferece capacitação e tenta mobilizar capacitação”, explica Mariana.
A equipe do Horizonte de Cuidado é formada por 11 pessoas, incluindo uma psicóloga, uma assistente social e uma educadora jurídica. Essas três profissionais não são contratadas permanentemente. “A gente tem acompanhado as cidades para onde o Corra pro Abraço tem se expandido”, declara Mariana, referindo-se a um programa da Suprad voltado especificamente para oferecer direitos às pessoas vulneráveis.
Internação
Primeira coordenadora do Horizontes do Cuidado, a antropóloga Luana Malheiro deixa claro que não acredita na internação como ponto de partida no tratamento ao vício em drogas. “Comemoramos agora 25 anos da Lei da Reforma Psiquiátrica, mas a gente sabe que há vários desafios na incorporação dessa lógica do cuidado, sobretu do nos interiores”, constata Luana.
A antropóloga atua agora na frente do advocacy, o campo de trabalho em que se usam estratégias para influenciar o poder público a mudar uma determinada política para um setor. “O projeto surge com essa perspectiva de aliar formação de trabalhadores com articulação política mais local, olhar a reativação dos conselhos municipais de políticas sobre drogas”, afirma Luana.
A implantação do processo de redução de danos em nível nacional está em um momento de formalização, segundo a antropóloga. “Mas é importante que esse processo seja compreendido por usuários e pelos trabalhadores”, ratifica Luana, que aponta a necessidade de que qualquer usuário em tratamento, em qualquer município brasileiro, tenha acesso à justiça e à apresentação da versão atual da Lei de Drogas.
Sobre os casos mais graves de adição, a antropóloga considera que a resposta está no Sistema Único de Saúde (SUS). “A gente tem ali uma rede completa para atender essa população. Na saúde mental em álcool e drogas a gente tem mecanismos para cuidar disso”, avalia.